Romanos 10:4
O Texto
Paulo acaba de dizer algo duro sobre o seu próprio povo: têm zelo, sim, mas "não com entendimento", e por isso, tentando "estabelecer a sua propria justiça", não se sujeitaram à justiça que vem de Deus. E então vem a frase que sustenta todo o argumento, curta como uma sentença de tribunal: "o fim da lei é Christo para justiça de todo aquelle que crê". Tudo aquilo que a lei apontava, exigia e prometia encontra o seu ponto de chegada numa pessoa. E o benefício dessa chegada, a justiça, não se distribui por mérito nem por linhagem, mas alcança "todo aquelle que crê", sem restrição de nome, de sangue ou de currículo religioso.
O Cerne
A palavra grega que Paulo escolhe aqui é telos, e ela carrega duas coisas ao mesmo tempo: término e finalidade. Cristo é o ponto onde a lei termina como caminho de justificação, e é também o alvo para o qual ela sempre correu, como uma estrada que acaba porque chegou à cidade. Isso muda a natureza do problema humano. O drama não é que Israel não se esforçou; o drama é que se esforçou muito, e na direção errada, tentando produzir aquilo que só podia ser recebido. Existe uma justiça de Deus e existe uma "propria justiça", e a segunda não é uma versão menor da primeira, é a sua rival. A frase de Paulo, portanto, não desmerece a lei; ela desmonta a nossa pretensão de nos apresentarmos diante de Deus com algo em mãos. O que resta é crer, e crer não é uma obra menor: é abrir a mão.
O Fio Condutor
Repare no que Paulo faz nos versículos seguintes: pega um texto de Moisés sobre a lei estar perto, "na tua bocca e no teu coração", e o lê como palavra sobre Cristo. Não é um truque exegético; é a convicção de que a lei nunca foi um sistema autônomo, mas um dedo apontando. Os sacrifícios diziam que sangue era necessário e ao mesmo tempo confessavam a própria insuficiência, repetindo-se ano após ano. O sacerdócio dizia que alguém precisa estar entre Deus e o povo. As promessas a Abraão diziam que a bênção alcançaria as nações. Tudo isso corre para um ponto. Quando Paulo escreve "quem subirá ao céu?" e "quem descerá ao abysmo?", está dizendo que a busca acabou: não precisamos escalar nem cavar, porque aquele que a lei anunciava já veio, já morreu e já foi ressuscitado. O fio não se rompe em Cristo; ele se ata.
O Espelho
A "propria justiça" raramente se apresenta com esse nome. Ela aparece quando você compara o seu casamento com o dos outros e sente um alívio secreto. Quando o seu currículo de serviço na igreja funciona como argumento diante de Deus nas noites em que a consciência acusa. Quando o dinheiro que você deu, a disciplina que manteve, os filhos que criou direito viram uma espécie de dossiê que você apresenta sem perceber. É zelo, e zelo verdadeiro, mas "não com entendimento": esforço enorme na direção de um lugar aonde ninguém chega por esforço. O que este versículo faz é tirar o dossiê da sua mão, não porque as suas obras sejam desprezíveis, mas porque elas nunca foram moeda. Hoje, escreva num papel a única coisa que você secretamente usa para se sentir aceitável diante de Deus, e depois escreva por cima: "o fim da lei é Christo". Guarde ou rasgue, mas escreva.
O Personagem Principal
Cristo é o sujeito da frase, mas o personagem que se move em torno dele, no capítulo inteiro, é Deus mesmo, e a imagem final é desconcertante: "Todo o dia estendi as minhas mãos a um povo rebelde e contradizente". Não é o gesto de um juiz que fecha o processo; é o gesto de alguém de braços abertos por um dia inteiro, cansado, insistente, recusando-se a desistir. Esse Deus não exige que subamos ao céu para buscá-lo. Ele desce. Ele coloca a palavra perto, na boca e no coração, ao alcance de gente que não estava procurando: "Fui achado pelos que me não buscavam". A justiça de Deus, nesse capítulo, não é apenas um estatuto jurídico; é o modo como Deus age quando decide salvar em vez de contabilizar.
A Pergunta
Se Cristo é o fim da lei, a lei ainda serve para alguma coisa? A resposta honesta é que Paulo nunca diz que ela morreu; diz que ela chegou ao seu destino como caminho de justificação. Continua descrevendo o que é uma vida humana boa, continua expondo o que está torto em nós. O incômodo maior, porém, é outro: e o zelo sincero de Israel, e o zelo sincero de tanta gente religiosa hoje, não conta nada? Paulo não suaviza. Sinceridade não é o mesmo que verdade, e um coração ardente pode arder na direção errada. Ele também não conclui que Deus os descartou; ora por eles, versículo 1, e fala de ciúmes e de mãos estendidas. Fica uma tensão que o texto não resolve, e talvez seja essa tensão que sustenta a oração.
O Perfil
Em Roma havia cristãos judeus que tinham vivido a lei como identidade, e cristãos vindos do paganismo que nunca tinham circuncidado nada. Para os primeiros, esta frase era quase uma amputação: o que sobra de Moisés, das festas, da história do meu povo? Para os segundos, era uma porta escancarada e um perigo, o de se acharem superiores. Por isso Paulo insiste, logo abaixo, que "não ha differença entre judeo e grego". Os primeiros ouvintes não escutaram aqui uma doutrina abstrata sobre justificação, mas uma decisão sobre quem podia sentar-se à mesa com quem. Cristo como fim da lei significava que a mesa tinha um só fundamento, e ninguém entrava por herança.
Reflexão
O que você apresentaria a Deus, sem perceber, se ele perguntasse hoje por que deveria receber você?
Onde no seu zelo religioso há energia sincera correndo numa direção que este versículo interrompe?
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O que a comunidade compartilha sobre Romans 10
Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Obrigado, Senhor, por aqueles pés que caminharam até mim trazendo boas novas: quem me falou de Jesus pela primeira vez, o missionário que cruzou o mundo, a voz que não se calou. Que formosos são esses pés que me alcançaram.
Paulo acabara de dizer que ninguém precisa subir ao céu nem descer ao abismo para buscar Cristo. A palavra já está perto, "na tua boca e no teu coração". Por isso a salvação passa por esses dois lugares tão simples. Você não precisa alcançar Jesus. Ele já veio. Falta dizer em voz alta o que o seu coração já crê.
Quem descerá ao abismo? (isto é, para levantar Cristo dentre os mortos)". Repare como essa pergunta já nasce cansada. Ela supõe que alguém precisa ir buscar o que Deus já entregou. Mas Cristo ressuscitou. Não há abismo a descer, nem prova a cumprir. A palavra está perto, na sua boca e no seu coração.
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