2 Reis 17
O Texto
Oseias, último rei do norte, cai diante da Assíria; Samaria é cercada três anos e o povo é deportado. Então o narrador para a história e faz uma autópsia: por que Israel morreu. Segue uma lista longa e implacável de práticas, avisos ignorados e o veredito de Deus. No fim, povos estrangeiros são trazidos para a terra vazia e produzem uma religião híbrida: "ao Senhor temiam, e tambem a seus deuses serviam".
O Núcleo
O versículo 9 tem uma expressão que arde: "os filhos de Israel fizeram secretamente coisas que não eram rectas, contra o Senhor seu Deus". Não foi uma apostasia dramática num único dia. Foi um deslizamento discreto, feito de escolhas pequenas que ninguém anunciava. Altares em cada cidade, "desde a torre das atalaias até á cidade forte", ou seja, do posto mais remoto ao centro do poder. É assim que uma vida se perde também: não com uma renúncia pública à fé, mas com concessões que se justificam uma a uma até que a soma delas seja uma outra religião. O julgamento em 722 a.C. não criou nada de novo; apenas tornou visível o que já existia há gerações. Deus não improvisa juízos. Ele revela o que já estava lá.
O Fio Condutor
O capítulo insiste que Deus falou antes de agir: "o Senhor protestou a Israel e a Judah, pelo ministerio de todos os prophetas e de todos os videntes". Séculos de aviso, e a resposta foi cerviz endurecida. Isso não é um parêntese sombrio na história da salvação; é o pano de fundo sem o qual a encarnação não faz sentido. Deus manda profetas, depois manda o Filho. A parábola dos lavradores maus em Marcos 12 conta exatamente esta história e leva-a ao fim. E note o verso 18: "nada mais ficou, senão só a tribu de Judah". Um resto. É de Judá que virá aquele que guarda o concerto que ninguém guardou. A graça não cancela o realismo deste capítulo, nasce dentro dele.
O Espelho
Somos ótimos em religião de bloco duplo. Frequentamos a igreja e ao mesmo tempo servimos aos deuses da cidade: a carreira que decide sozinha onde a família vai morar, a poupança que é o verdadeiro seguro contra o medo, a opinião alheia que dita o que podemos dizer no trabalho. "Ao Senhor temiam, e tambem a seus deuses serviam." O problema nunca foi Israel negar o Senhor. Foi acrescentá-lo. Pergunte-se com honestidade: nas três últimas decisões grandes que você tomou, dinheiro, tempo, uma conversa difícil evitada, o que de fato pesou? Se o Senhor entrou na deliberação como um voto entre outros, você já sabe qual é o seu Baal. E há a palavra mais dura do capítulo: "venderam-se para fazer o que parecia mal aos olhos do Senhor". Vender-se é sempre por um preço que na hora parece razoável.
O Protagonista
O protagonista aqui é Deus, e o retrato é desconfortável. Ele é o Deus que "os fizera subir da terra do Egypto, de debaixo da mão de Pharaó": a relação começa com libertação, não com exigência. Ele é paciente ao ponto de mandar profeta após profeta durante dois séculos. E é Ele quem finalmente "se indignou" e "os tirou de diante da sua face". A ira de Deus neste capítulo não é temperamento; é a integridade de um amor que se recusa a fingir que a traição não aconteceu. Um deus que tolerasse tudo seria um deus que não ama ninguém em particular. O que fere é que o mesmo braço estendido que tirou Israel do Egito é o braço que o entrega "nas mãos dos despojadores".
O Intertexto
Deuteronômio 28 já havia colocado a bênção e a maldição diante do povo, com o exílio no fim da lista. Segundo Reis 17 não é um acidente histórico, é um contrato executado. Israel sabia. E há um eco no Novo Testamento que este capítulo torna mais compreensível: quando Jesus conversa com a mulher samaritana em João 4, ele fala com a descendente exata desta mistura religiosa, e diz que a salvação vem dos judeus, mas oferece-lhe água viva mesmo assim. O juízo de 722 não teve a última palavra sobre Samaria. Isso não suaviza o capítulo; mostra até onde a graça vai depois que o juízo já disse a verdade.
O Detalhe
Versículo 15: "andaram após a vaidade, e ficaram vãos". Em hebraico a palavra é hevel, o mesmo sopro de Eclesiastes: vapor, nada, fumaça. E aqui está a lei espiritual mais séria do capítulo: você se torna aquilo que adora. Quem persegue o vazio fica vazio. Isto não é castigo aplicado de fora, é a consequência interna da idolatria. O executivo que serve o rendimento acaba com a alma do rendimento: eficiente e incapaz de descansar. Quem serve a imagem que projeta acaba oco por dentro, exatamente do tamanho da imagem. A alternativa não é esforçar-se mais, é olhar para outro lugar tempo suficiente para começar a parecer-se com ele.
Reflexão
Onde na sua vida você faz "secretamente coisas que não eram rectas", pequenas concessões que ninguém vê e que você já parou de contar?
Se você se torna aquilo que adora, o que as pessoas mais próximas diriam que você tem adorado nos últimos dois anos?
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Oseias procurou o Egito. Justamente o Egito, a terra de onde Deus tinha tirado o povo com mão poderosa. Buscou socorro na antiga casa da escravidão e acabou assim: "o encerrou e o meteu em grilhões, na casa do cárcere". Pense bem em que porta você tem batido. Nem toda saída liberta. Algumas só te acorrentam de novo.
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