Isaías 41:8
O Texto
Depois de descrever oficinas barulhentas onde artesãos encorajam ourives e soldadores pregam ídolos ao chão para que não tombem, a voz muda de direção e de tom. "Porém tu, ó Israel, servo meu, tu Jacob, a quem elegi e tu semente de Abrahão, meu amigo." Nenhum verbo de ordem, nenhuma exigência: apenas nomes empilhados sobre um povo derrotado, como quem recita uma genealogia diante de um tribunal para provar que aquele réu tem família.
O Cerne
O versículo não diz nada sobre o que Israel fez. Diz tudo sobre o que Deus fez com Israel: escolheu, chamou, aparentou. Servo, eleito, semente de Abraão: três títulos que nascem inteiramente da iniciativa divina. Isso importa porque o povo que ouve isso está no chão. Se a identidade dependesse do desempenho, a conversa teria terminado em 587 a.C., com o templo em cinzas. A eleição, aqui, não é privilégio de superioridade, é âncora. Deus amarra o seu nome ao de um povo falido e recusa-se a desamarrá-lo. É essa a lógica da graça muito antes de Paulo lhe dar nome: Deus escolhe primeiro, e a escolha sustenta o escolhido quando este já não se sustenta a si próprio.
O Fio Condutor
"Servo meu" é uma palavra que Isaías vai puxar como um fio ao longo de capítulos inteiros. Começa aqui, colectivo, aplicado a Israel. Mas o servo falha, é surdo e cego, e o fio afina-se até chegar a uma figura única que carrega o que o povo não conseguiu carregar, aquele que é ferido pelas nossas transgressões no capítulo 53. O Novo Testamento reconhece nesse rosto Jesus de Nazaré. Assim, a promessa a Jacó não é substituída, é cumprida: aquilo que Deus prometeu a um povo trémulo torna-se seguro num Filho fiel. E quem está em Cristo entra por adopção nesta mesma linha de nomes, sem ter nascido nela.
O Espelho
Há um teste simples para saber onde assenta a sua identidade: repare no que lhe vem à cabeça quando algo corre mal. Uma reunião em que o seu trabalho foi desmontado à frente de colegas. Um filho que já não quer falar consigo. Um diagnóstico que reorganiza o calendário todo. Se nesses momentos você sente que deixou de valer, é sinal de que a sua identidade estava presa a resultados, e resultados são pregos que não seguram. O versículo oferece outra coisa: nomes que Deus lhe dá antes de qualquer avaliação de desempenho. Não é consolo barato. É a recusa de deixar que a sua derrota tenha a última palavra sobre quem você é.
O Detalhe
"Meu amigo." Em hebraico está aqui um particípio, ohavi, literalmente "aquele que me ama", ou, mais provavelmente no seu uso antigo, "o meu amado". A palavra pertencia ao vocabulário dos tratados entre reis: o vassalo leal era chamado "amigo" do soberano, e o termo implicava aliança, não simpatia. Ou seja, Deus está a usar linguagem diplomática do mundo real, aquele mundo em que Israel foi engolido por impérios que faziam e desfaziam tratados conforme lhes convinha. E diz: o meu tratado com a tua família continua de pé. Repare também que não é Israel a reivindicar amizade com Deus; é Deus a reivindicar amizade com Abraão. A iniciativa está sempre do lado errado das nossas expectativas.
O Perfil
Imagine quem ouve isto. Judeus na Babilónia, talvez na segunda geração, a falar arameu na rua e hebraico só em casa. Ao seu redor, a cidade dos deuses: as procissões de Marduk, os zigurates, o cheiro de betume e de incenso, a certeza confiante de um império que ganhou. Vocês são gente vencida numa terra de vencedores. Alguém do oriente está a levantar-se, as nações estremecem, e os babilónios respondem a martelar mais ídolos. E então, no meio do estrondo das oficinas, uma voz chama-vos pelo nome do avô. "Semente de Abraão." Como se dissesse: vocês não começaram no exílio e não vão acabar nele. Vocês vêm de uma promessa.
O Intertexto
O eco mais próximo está em Gênesis 12, quando Deus chama Abrão de uma cidade da Mesopotâmia e o faz caminhar para uma terra que ainda não conhece. Os exilados estão outra vez na Mesopotâmia, e Deus vai fazer outra vez o mesmo caminho com eles: chamar, tirar, levar. A citação de Abraão não é ornamento sentimental, é um mapa. O outro eco vem de 2 Crônicas 20, onde Josafá, cercado por exércitos, reza lembrando a Deus que ele deu a terra à descendência de Abraão, seu amigo. Nos dois casos, o título de amigo aparece quando tudo está a desabar. É um nome para tempos maus.
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Reflexão
Quando o seu trabalho, a sua saúde ou a sua reputação falham, que nome usa para si próprio, e de onde é que esse nome veio?
A quem, na sua vida, você precisa de dizer "porém tu", interrompendo o barulho que essa pessoa ouve sobre si mesma?
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