Explicação bíblica

Isaías 57

Bíblia
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O Texto

O capítulo abre com uma constatação amarga: o justo morre e ninguém repara, os homens compassivos são recolhidos e a cidade continua sua vida como se nada tivesse acontecido. Em seguida o profeta se volta contra o povo com linguagem violenta, acusando-o de adultério espiritual: cultos sob árvores verdes, sacrifício de crianças nos ribeiros, camas armadas em montes altos, alianças costuradas com reis estrangeiros. E então, sem transição suave, a voz muda: o Deus que habita na eternidade declara que mora também com o contrito, promete aplainar o caminho, curar, guiar e criar "paz, paz, para os que estão longe, e para os que estão perto".

O Cerne

Há aqui uma teologia da santidade que desmonta nossas intuições. Deus se apresenta como "o alto e o sublime, que habita na eternidade, e cujo nome é sancto", e logo emenda que sua morada é dupla: "Na altura e no logar sancto habito; como tambem com o contrito e abatido de espirito". Não é que Deus desça ocasionalmente para visitar os quebrados; a altura e o quarto do coração desfeito são o mesmo endereço. E a razão dada no verso 16 é ainda mais desconcertante: ele não contende para sempre porque o espírito humano simplesmente não aguentaria. A misericórdia aqui não brota do mérito do povo, que acabou de ser chamado de "semente adulterina", mas da fragilidade da criatura diante do Criador que a fez.

O Fio Condutor

O verso 14 ecoa deliberadamente o começo desta segunda metade de Isaías: "Aplainae, aplainae a estrada, preparae o caminho: tirae os tropeços do caminho do meu povo". É a mesma voz de Isaías 40, aquela que os quatro Evangelhos colocam na boca de João Batista. Só que aqui o obstáculo na estrada não é geografia, é idolatria: os tropeços são as pedras lisas dos ribeiros, as camas nos montes, a diplomacia que se abate até aos infernos. Preparar o caminho do Senhor sempre significou remover o que o coração ergueu. E o verso 19, "paz, paz, para os que estão longe, e para os que estão perto", reaparece em Efésios 2, onde Paulo o aplica a Cristo pregando paz a judeus e gentios. O que em Isaías era promessa aberta ganha nome e corpo.

O Espelho

O verso 10 é o mais próximo de nós: "Na tua comprida viagem te cançaste; porém não dizes: É coisa desesperada". Esse é o retrato do cansaço que se recusa a admitir que a viagem não leva a lugar nenhum. Você reconhece isso na carreira que exige mais um ano, mais um cargo, mais uma prova de valor. Na relação que já morreu mas que você mantém por medo do vazio. Na conta bancária que nunca chega ao número que traria sossego. O texto diz que o problema não é você buscar, é você achar o suficiente para continuar buscando. E o verso 11 fecha o cerco: "não é porventura porque eu me calo". O silêncio de Deus, que interpretamos como ausência ou permissão, é lido aqui como paciência mal aproveitada.

O Contexto

O pano de fundo mais provável é o fim do reino de Judá, quando os cultos cananeus voltaram com força sob Manassés e o sacrifício infantil no vale de Hinom deixou de ser exceção. "Sacrificaes os filhos nos ribeiros" não é metáfora. Ao mesmo tempo, a política externa de Judá era um exercício desesperado de sobrevivência entre Assíria e Egito, e o verso 9, com o óleo, os perfumes e os embaixadores enviados para longe, descreve exatamente essa corrida atrás de protetores. O profeta funde as duas coisas numa só acusação de prostituição, porque para ele a idolatria religiosa e a barganha diplomática nascem do mesmo lugar: um povo que não confia que o seu Deus basta.

O Protagonista

Deus aparece neste capítulo em três registros que custam a caber na mesma pessoa. Primeiro o marido traído, com uma ironia cortante: "contentar-me-hia eu d'estas coisas?". Depois o juiz que se esconde e fere. E finalmente, no verso 18, algo que não segue de nada do que veio antes: "Eu vejo os seus caminhos, e os sararei". Note que ele vê os mesmos caminhos rebeldes do verso 17 e a resposta muda de golpe para cura. Não há arrependimento narrado entre um verso e outro. A virada acontece dentro de Deus, não dentro do povo, e é isso que torna este capítulo insuportavelmente bom.

O Detalhe

"Eu crio os fructos dos labios". O verbo é o mesmo de Gênesis 1: criar do nada, prerrogativa exclusivamente divina. O que Deus cria aqui não é luz nem estrelas, mas palavra humana, o louvor de gente que não tinha nada para dizer. Um povo mudo pela culpa não consegue produzir sequer um agradecimento sincero; Deus então cria o agradecimento. Isso muda o sentido do "paz, paz" que vem logo depois: não é Deus tentando acalmar alguém, é Deus colocando na boca do perdoado a palavra que ele mesmo não conseguia formar. E o contraste final é impiedoso: os ímpios são "como o mar bravo", incapazes de aquietar-se, gerando lama de dentro de si mesmos.

Reflexão

Onde, na sua vida, você continua uma viagem cansativa sem admitir que ela não leva a lugar nenhum, porque encontra o suficiente para justificar mais um passo?

Se Deus habita "na altura" e com "o contrito e abatido de espirito", o que isso diz sobre os lugares onde você tem procurado a presença dele?

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Perguntas frequentes sobre Isaiah 57

Respostas rápidas às perguntas mais comuns sobre esta passagem bíblica.

O que significa Isaías 57?
O capítulo abre com uma constatação amarga: o justo morre e ninguém repara, os homens compassivos são recolhidos e a cidade continua sua vida como se nada tivesse acontecido. Em seguida o profeta se volta contra o povo com linguagem violenta, acusando-o de adultério espiritual: cultos sob árvores verdes, sacrifício de crianças nos ribeiros, camas armadas em montes altos, alianças costuradas com reis estrangeiros.
Sobre o que fala Isaías 57?
O verso 14 ecoa deliberadamente o começo desta segunda metade de Isaías: "Aplainae, aplainae a estrada, preparae o caminho: tirae os tropeços do caminho do meu povo". É a mesma voz de Isaías 40, aquela que os quatro Evangelhos colocam na boca de João Batista.
Qual é o contexto histórico de Isaías 57?
O pano de fundo mais provável é o fim do reino de Judá, quando os cultos cananeus voltaram com força sob Manassés e o sacrifício infantil no vale de Hinom deixou de ser exceção. "Sacrificaes os filhos nos ribeiros" não é metáfora.
O que Isaías 57 nos ensina sobre o caráter de Deus?
"Eu crio os fructos dos labios". O verbo é o mesmo de Gênesis 1: criar do nada, prerrogativa exclusivamente divina. O que Deus cria aqui não é luz nem estrelas, mas palavra humana, o louvor de gente que não tinha nada para dizer. Um povo mudo pela culpa não consegue produzir sequer um agradecimento sincero; Deus então cria o agradecimento.
Como Isaías 57 continua relevante hoje?
Se Deus habita "na altura" e com "o contrito e abatido de espirito", o que isso diz sobre os lugares onde você tem procurado a presença dele?

O que lhe toca em Isaiah 57?

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