Explicação bíblica

João 19:25

Bíblia

O Texto

Quatro soldados acabam de repartir a roupa do condenado e jogam dados pela túnica inteira, ali, ao pé do madeiro. E a poucos passos deles, no mesmo círculo de terra pisada, há outro grupo: "E junto á cruz de Jesus estava sua mãe, e a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cleophas, e Maria Magdalena." João não descreve rostos nem lágrimas. Apenas registra nomes e uma posição: junto à cruz. Mulheres que não fugiram, que atravessaram a cidade atrás da escolta romana, que ouviram o som do martelo. Um versículo curto, quase um inventário, colocado entre o cinismo dos soldados e as últimas palavras de Jesus à mãe. É a lista das que ficaram.

O Cerne

Repare onde João coloca a câmera. De um lado, homens com poder nas mãos, dividindo despojos; do outro, mulheres sem nenhum poder, sem direito a testemunhar num tribunal judaico, sem meios de impedir coisa alguma. E é delas que o evangelho guarda os nomes. Isso diz algo incômodo e belo sobre Deus: a fidelidade que ele reconhece não é a que resolve, é a que permanece. Nenhuma daquelas mulheres salvou Jesus. Elas só ficaram perto enquanto ele morria, e ficar perto foi tudo o que havia para fazer. O verbo grego aqui é um imperfeito, "estavam de pé", uma ação que se prolonga: hora após hora, sob o sol, sem saída. A graça não nasce da competência dos que estão ao pé da cruz. Nasce de quem está pregado nela. Mas a graça é vista, primeiro, por quem não saiu dali.

O Fio Condutor

Logo depois, Jesus se dirige a ela com uma palavra estranha: "Mulher, eis ahi o teu filho." Não "mãe". A mesma palavra que usou em Caná, no começo do evangelho. João está fechando um arco, e o arco é maior do que a biografia de Maria. Desde Gênesis 3:15, a promessa de que o descendente da mulher esmagaria a cabeça da serpente ficou pendurada sobre a história humana como uma dívida não paga. Ali, no Gólgota, a mulher está de pé e o descendente está sendo esmagado, e é exatamente assim que a promessa se cumpre. Não há glória visível nessa cena, apenas um corpo que morre e um pequeno grupo que não arreda o pé. O plano de Deus avança sem nenhum dos sinais que associamos a avanço.

O Espelho

Você conhece essa posição. O quarto de hospital onde não há mais nada a fazer além de molhar os lábios de alguém. O filho de vinte e cinco anos que não quer mais conversar sobre fé e você aprende a calar. O casamento do seu amigo que se desmancha enquanto você assiste. Nossa primeira reação diante do sofrimento alheio é procurar a solução, e quando não há solução, a segunda reação é ir embora, discretamente, com uma desculpa razoável. As mulheres ao pé da cruz desmentem esse instinto. Elas provam que presença impotente ainda é presença, e que Deus a registra pelo nome. Hoje, antes de dormir: escolha uma pessoa que está num sofrimento que você não pode resolver e mande uma mensagem dizendo apenas que você sabe, que não vai sumir, e que não precisa de resposta.

O Perfil

Os primeiros leitores de João viviam décadas depois, numa comunidade onde confessar Jesus publicamente podia custar o lugar na sinagoga, a família, o sustento. Eles conheciam bem a tentação de crer em silêncio, como José de Arimateia, "discipulo de Jesus, mas occulto, por medo dos judeos". Para esses leitores, este versículo era uma acusação e um consolo ao mesmo tempo. Acusação porque os homens, os Doze, não estavam ali. Consolo porque Deus confiou o momento decisivo da história a testemunhas que nenhum tribunal da época aceitaria: mulheres. Num mundo em que o testemunho feminino valia pouco, João o coloca na base da sua narrativa. Quem transmitiu o que aconteceu no Gólgota foram elas.

A Personagem Principal

Maria está vendo morrer o filho que lhe foi anunciado por um anjo. Trinta e poucos anos antes lhe disseram que ele reinaria; agora Pilatos pregou um letreiro irônico com o título de rei sobre a cabeça dele. Tudo o que ela guardou no coração está sendo desmentido diante dos seus olhos, e ela não sai. Não há nela heroísmo retórico, não há discurso. Há uma mulher de pé, provavelmente com as pernas cansadas, num lugar onde nenhuma mãe deveria estar. O que Maria revela sobre a fé é duro e libertador: fé não é a certeza de que entendemos o que Deus está fazendo. É ficar no lugar onde Deus nos colocou quando entender se tornou impossível. E o Filho, mesmo agonizando, repara nela e providencia um teto para a sua velhice.

A Pergunta

Por que Jesus não a consolou? Teria sido tão simples: três dias, mãe, só três dias. Ele conhecia o fim. Em vez disso, entrega Maria a outro homem, arranja-lhe uma casa, e não diz uma palavra sobre domingo. O texto não explica. Talvez porque a dor dela fosse real e não devesse ser abreviada por uma informação. Talvez porque a fé que Deus forma em nós não cresce em quem recebe adiantamentos, mas em quem permanece no escuro. Não vou fingir que isso resolve a questão. Fica o fato nu: Deus deixou sua mãe chorar o sábado inteiro sem lhe dizer o que sabia.

Reflexão

De quem você se afastou porque não conseguia resolver o problema dessa pessoa, e o que custaria voltar a ficar perto sem nada nas mãos?

Onde, na sua vida, você está esperando de Deus uma explicação quando talvez ele esteja lhe oferecendo apenas companhia?

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Perguntas frequentes sobre John 19:25

Respostas rápidas às perguntas mais comuns sobre esta passagem bíblica.

O que significa João 19:25?
Quatro soldados acabam de repartir a roupa do condenado e jogam dados pela túnica inteira, ali, ao pé do madeiro. E a poucos passos deles, no mesmo círculo de terra pisada, há outro grupo: "E junto á cruz de Jesus estava sua mãe, e a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cleophas, e Maria Magdalena.
Sobre o que fala João 19:25?
Repare onde João coloca a câmera. De um lado, homens com poder nas mãos, dividindo despojos; do outro, mulheres sem nenhum poder, sem direito a testemunhar num tribunal judaico, sem meios de impedir coisa alguma. E é delas que o evangelho guarda os nomes. Isso diz algo incômodo e belo sobre Deus: a fidelidade que ele reconhece não é a que resolve, é a que permanece.
Qual é o contexto histórico de João 19:25?
Logo depois, Jesus se dirige a ela com uma palavra estranha: "Mulher, eis ahi o teu filho." Não "mãe". A mesma palavra que usou em Caná, no começo do evangelho. João está fechando um arco, e o arco é maior do que a biografia de Maria. Desde Gênesis 3:15, a promessa de que o descendente da mulher esmagaria a cabeça da serpente ficou pendurada sobre a história humana como uma dívida não paga.
O que João 19:25 nos ensina sobre o caráter de Deus?
Você conhece essa posição. O quarto de hospital onde não há mais nada a fazer além de molhar os lábios de alguém. O filho de vinte e cinco anos que não quer mais conversar sobre fé e você aprende a calar. O casamento do seu amigo que se desmancha enquanto você assiste.
Como João 19:25 continua relevante hoje?
Os primeiros leitores de João viviam décadas depois, numa comunidade onde confessar Jesus publicamente podia custar o lugar na sinagoga, a família, o sustento. Eles conheciam bem a tentação de crer em silêncio, como José de Arimateia, "discipulo de Jesus, mas occulto, por medo dos judeos".
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O que a comunidade compartilha sobre John 19

Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.

Oração Editorial em versículo 17

Senhor Jesus, tu carregaste aquele peso sozinho, caminhando até o lugar da caveira por mim. Quando a minha estrada parece pesada demais, lembra meu coração de que já passaste por ela primeiro e não me deixas andar sem companhia.

Reflexão Editorial em versículo 30

Está consumado!" Não foi um gemido de derrota, foi o anúncio de uma obra inteira, terminada. E repare: Ele inclinou a cabeça e entregou o espírito. Ninguém arrancou nada dele. Até o último suspiro foi dado, não tomado. O que você ainda tenta acrescentar a uma cruz que já disse basta?

Reflexão Editorial em versículo 33

Chegando, porém, a Jesus, como vissem que já estava morto, não lhe quebraram as pernas." Os soldados vieram com o ferro na mão, prontos para apressar o fim. Chegaram tarde. Jesus já havia entregado o espírito na hora que Ele mesmo escolheu. Ninguém arrancou dele a vida. Ele a deu. E até esse detalhe, o osso que não se quebra, estava escrito séculos antes. Nada ali foi acidente. Nem a sua dor é.

Oração Editorial em versículo 18

Pai, penso em Jesus ali no meio, entre dois condenados, sem se afastar da dor de ninguém. É esse o lugar que ele escolheu, e é ali que eu também sou encontrado. Obrigado por não me deixar de fora desse abraço.

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