João 4:14
O Texto
Jesus está sentado à beira de um poço antigo, cansado, com sede, e diz a uma mulher que veio buscar água que existe outra água. Quem bebe da água do poço de Jacó voltará a ter sede amanhã, e depois de amanhã, e todos os dias até morrer. Mas quem beber da água que ele dá "nunca terá sêde, porque a agua que eu lhe der se fará n'elle uma fonte d'agua que salte para a vida eterna". A promessa não é um poço melhor. É uma fonte por dentro. Algo que deixa de ser buscado fora e começa a brotar dentro, e que não corre para baixo, para a terra, mas salta para cima, para a vida eterna.
O Núcleo
Repare no verbo: a água "salta". O grego usa uma palavra, hallomenou, que descreve o pulo de um animal, o salto de um homem que se levanta de repente. Água que salta é água que não obedece à gravidade. Toda água que conhecemos desce; esta sobe. E é isso que Jesus diz sobre o dom de Deus: não é um recurso que se administra com parcimônia, é uma vida que se impõe de dentro para fora, com direção própria. Note também que Jesus não promete dar água de vez em quando. Promete instalar a fonte. O dom não é a bebida, é o manancial. Deus não pretende sustentar-nos com goteiras de graça; pretende habitar-nos.
O Fio Condutor
Séculos antes, Deus acusara o seu povo por dois pecados numa só frase em Jeremias: abandonaram a fonte de águas vivas e cavaram para si cisternas rotas. A imagem já estava posta: Deus é fonte, e a religião humana é reservatório furado. Aqui, junto ao poço de Jacó, aquela fonte está sentada na pedra, exausta e com sede. O paradoxo é deliberado em João: aquele que tem a água viva pede de beber. A fonte que jorra vida eterna passará pela morte, e na cruz dirá outra vez "tenho sede". O fio vai do poço patriarcal, passando pelo Messias esgotado ao meio-dia, até ao rio que atravessa a cidade nova no fim de Apocalipse. Sempre água, sempre dada de graça.
O Espelho
Você conhece a sede que volta. O reconhecimento no trabalho que durou três semanas antes de precisar de novo reconhecimento. A casa que resolveu tudo até se tornar hipoteca e manutenção. O elogio do seu filho, do seu marido, do seu pastor, que aquece por uma tarde. Não é que essas águas sejam más; é que são água de poço, e água de poço acaba. O que Jesus expõe não é o seu apetite, é o seu método: você continua a levar o cântaro ao mesmo lugar, todos os dias, ao meio-dia, no calor, esperando que desta vez a água fique. E se o problema não fosse a quantidade de água que você consegue tirar, mas o facto de você ainda estar a tirar em vez de receber?
Contexto
Meio-dia, a "hora sexta", o momento em que ninguém vai ao poço se puder evitá-lo. Samaria, território que judeus atravessavam de má vontade, com séculos de rancor entre os dois povos: templos rivais, escrituras rivais, uma história de traições mútuas. Jesus está cansado do caminho, sozinho, sem balde. A mulher tem um cântaro; ele não tem nada. Socialmente, um rabino judeu não fala a solas com uma mulher samaritana, e menos com esta, que carrega uma biografia de cinco maridos. Tudo neste encontro está fora de lugar: a hora, o lugar, os interlocutores. E é exactamente neste lugar impróprio que se anuncia a fonte interior. Deus não espera pelas condições decentes.
O Perfil
Os primeiros leitores de João eram, em boa parte, gente expulsa: crentes em Jesus que tinham perdido acesso à sinagoga, ao lugar sagrado, ao ritmo religioso que os formara. Para eles, esta promessa tinha um peso que talvez nos escape. Se o poço vos foi negado, se já não podeis ir buscar água onde sempre fostes, ouvi isto: a fonte não está num monte nem em Jerusalém, está em vós. Não é intimismo moderno; é a resposta de Cristo à pergunta sobre o lugar do culto, que vem poucos versículos depois. Os que perderam o edifício descobriram que o Espírito não era imóvel. Para uma comunidade sem endereço religioso, esta frase era chão firme.
A Pergunta
Então porque é que ainda tenho sede? Se a promessa é "nunca terá sêde", e eu creio, e ainda assim há manhãs em que me sinto seco por dentro, mentiu ele ou falhei eu? Não quero costurar isso depressa. Talvez a fonte esteja lá e eu tenha aprendido a ignorá-la, ocupado a arrastar o cântaro. Talvez a vida eterna, começando agora, ainda não tenha acabado de chegar, e a sede que resta seja sede da própria fonte, não sede de outra coisa. Note que a mulher, depois desta promessa, deixa o cântaro. Não o enche primeiro. Talvez seja assim: a sede não desaparece, mas o balde deixa de importar.
Reflexão
A que poço você volta todos os dias, sabendo já que a água não fica?
Se a fonte está em você, o que na sua rotina a impede de saltar?
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Pai, tantas vezes fico surpreso com quem tu escolhes amar, e prefiro calar a perguntar. Perdoa o espanto que esconde preconceito. Ensina meu coração a atravessar as fronteiras que eu mesmo criei e a enxergar as pessoas como tu as vês.
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