Lucas 16
O Texto
Jesus conta, diante de discípulos e de fariseus que o escutavam com desprezo, a história de um administrador prestes a ser demitido por desperdiçar os bens do patrão. Antes que a notícia se espalhe, ele convoca os devedores e corta as dívidas pela metade, por um quinto, comprando amizades para o dia em que ficar na rua. O patrão, surpreendentemente, o elogia pela esperteza. Daí Jesus passa a falar de fidelidade no pouco, da impossibilidade de servir a Deus e a Mamom, e termina com outra história: um rico vestido de púrpura e linho finíssimo, banqueteando-se todos os dias, e Lázaro coberto de chagas, caído ao portão, disputando as migalhas com os cães. Depois da morte, as posições se invertem e um abismo intransponível se instala entre os dois.
O Cerne
Imagine o cheiro daquele portão: azeite queimando nas lamparinas lá dentro, carne assada, e do lado de fora o odor doce e enjoativo das feridas abertas. O rico passa por ali todos os dias. Sabe até o nome do mendigo, como se descobre no além, quando ainda tenta dar ordens: "manda a Lázaro". Esse é o coração do capítulo. Dinheiro, na boca de Jesus, nunca é apenas dinheiro; é um senhor que reivindica culto, e a prova de quem você serve está em quem você enxerga do outro lado da sua porta. O administrador desonesto, por mais torto que seja, entendeu algo que o rico não entendeu: bens são temporários e podem ser gastos em relações que sobrevivem ao colapso. Deus conhece os corações, diz Jesus, e "o que entre os homens é elevado, perante Deus é abominação".
O Fio Condutor
Repare em quem Jesus coloca no outro lado do abismo: não um anjo, não Deus, mas Abraão. Para os fariseus que zombavam, Abraão era a garantia, o pai cuja descendência eles eram por direito de sangue. E é justamente Abraão quem chama o rico de "filho" e ainda assim não o atende. A promessa feita a Abraão nunca foi um passaporte étnico; era bênção derramada para fora, para as nações, para os que estão ao portão. Por isso Jesus diz que a lei e os profetas duraram até João e que agora é anunciado o reino. Não que a lei tenha caído, nem um til dela, mas que chegou aquele a quem ela apontava. E o último verso do capítulo fica suspenso sobre a história inteira: alguém dos mortos de fato ressuscitaria, e ainda assim muitos não creriam.
O Espelho
Todos nós temos um portão. Pode ser a portaria do prédio, a mesa do cafezinho onde alguém sempre almoça sozinho, o número de telefone de um parente endividado que você já aprendeu a não atender. O rico da parábola não era cruel; era apenas distraído por um estilo de vida que funcionava bem. Essa é a parte incômoda. Ele não chutou Lázaro; só passou por ele, dia após dia, com a consciência limpa de quem não fez nada. Jesus não acusa o rico de roubar. Acusa-o de jantar bem com um homem morrendo à porta. E nos pergunta, sem rodeios, quem está no comando do nosso calendário e da nossa conta bancária, porque "ninguém pode servir a dois senhores". Hoje, siga o administrador na única coisa boa que ele fez: escolha uma dívida pequena que alguém tem com você, dinheiro emprestado, um favor pendente, e mande agora uma mensagem dizendo que está perdoada.
A Pergunta
Por que o patrão elogia um ladrão? A frase incomoda e deve incomodar. Jesus não diz que a fraude foi justa; chama o homem de "injusto mordomo" na mesma frase em que reconhece sua prudência. O elogio é à lucidez, não à ética. O sujeito olhou para o futuro com frieza, calculou que o emprego acabaria, e gastou tudo o que ainda controlava para garantir acolhida depois. Os filhos da luz, diz Jesus, raramente têm essa clareza sobre o próprio fim. O desconforto permanece: somos mandados a aprender com um vigarista. Talvez seja exatamente esse o método. Jesus não suaviza o dinheiro chamando-o de neutro; chama-o de "riquezas da injustiça" e manda gastá-lo em pessoas antes que ele desapareça nas mãos de quem não o levará a lugar nenhum.
O Detalhe
O mendigo tem nome. Em nenhuma outra parábola de Jesus um personagem é nomeado, e aqui o nome cai sobre o homem que, naquela sociedade, era exatamente o ninguém. O rico tinha certamente um sepulcro com inscrição, carpideiras contratadas, a cidade comentando por dias; o texto registra secamente que ele "foi sepultado". Lázaro provavelmente foi jogado numa vala comum, sem lápide, sem alguém que soubesse soletrar sua história. Mas é dele que sabemos o nome, Eleazar, "Deus ajuda", e é ele que os anjos carregam. A inversão não acontece só no além; acontece já na narração. Deus escreve a lista de convidados do seu banquete com outros critérios, e quem estava elevado entre os homens some sem nome.
O Intertexto
Amós, oito séculos antes, descreveu homens deitados em camas de marfim, comendo cordeiros escolhidos, inventando música como Davi, e sem nenhuma aflição pela ruína do povo. Jesus apenas atualiza o retrato e acrescenta a conta final. Os fariseus que zombavam conheciam Amós de cor; por isso a parábola doeu. E há o outro eco, quase cruel de tão exato: em João, um homem chamado Lázaro de fato volta dos mortos, e a reação das autoridades é tramar sua morte. "Se não ouvem a Moysés e aos prophetas, tão pouco acreditarão, ainda que algum dos mortos resuscite." A fé não nasce de espetáculo. Nasce de ouvir, e ouvir é algo que se pode recusar com os olhos abertos diante de um milagre.
Reflexão
Quem está, hoje, no seu portão, perto o bastante para você saber o nome e distante o bastante para não atrapalhar sua rotina?
Se seu dinheiro fosse auditado como a mordomia daquele administrador, em que relações ele mostraria ter sido investido?
Aprofunde-se em Luke
Livros selecionados a dedo que aprofundam ainda mais este livro da Bíblia.
Lucas: Introdução e comentário
Um comentário claro e confiável, versículo a versículo, que ajuda o leitor a entender o contexto histórico e a mensagem de salvação que Lucas quer transmitir.
Com linguagem acessível e calorosa, Wright percorre todo o Evangelho em pequenas porções, ideal para quem quer meditar em Lucas no dia a dia.
Lucas (Comentário do Novo Testamento)
Exposição detalhada e pastoral, de perspectiva reformada, para quem deseja aprofundar-se seriamente em cada passagem do terceiro Evangelho.
Faith.network earns a small commission on Kobo purchases made through these links, at no extra cost to you. It helps keep the studies free.
Perguntas frequentes sobre Luke 16
Respostas rápidas às perguntas mais comuns sobre esta passagem bíblica.
O que significa Lucas 16?
Sobre o que fala Lucas 16?
Qual é o contexto histórico de Lucas 16?
O que Lucas 16 nos ensina sobre o caráter de Deus?
Como Lucas 16 continua relevante hoje?
O que a comunidade compartilha sobre Luke 16
Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Havia um homem rico que tinha um administrador; e este lhe foi denunciado como quem estava a dissipar os seus bens." Repare: a acusação não foi roubo, foi desperdício. Ele não levou nada para casa, apenas deixou escorrer pelos dedos o que era de outro. Nada do que você tem é seu, é confiado. O tempo, a saúde, as pessoas. O que anda escorrendo pelos seus dedos hoje?
Senhor, aquele administrador soube agir rápido para aliviar a dívida dos outros. Ensina me a ter essa mesma pressa para perdoar, para repartir o que tenho, para cuidar das pessoas antes que o tempo passe. Que eu use o que me confiaste para abrir portas, não para me fechar.
E até os cães vinham lamber-lhe as úlceras." Os cães chegavam perto. O rico, não. Lázaro estava ali, no portão, e o homem passava todos os dias sem ver. Não houve crueldade escancarada, só indiferença. Me pergunto quem está no meu portão, tão constante na paisagem que já virou invisível.
Explore esta passagem em outro nível
Iniciante, teólogo ou uma leitura de outro tamanho? Ajuste as configurações e gere sua própria versão.
Abrir na ferramenta de estudo
