Lucas 18:37
O Texto
Um homem cego, sentado à beira da estrada em Jericó, ouve um ruído que não consegue interpretar: passos demais, vozes demais. Ele pergunta o que está acontecendo, e alguém da multidão lhe responde, quase de passagem: "que Jesus Nazareno passava". É só isso. Uma informação solta, dada provavelmente sem nenhuma intenção especial, talvez por alguém que nem olhou para baixo ao falar. Mas é essa frase, e não outra, que coloca em movimento tudo o que vem depois: o grito, a repreensão da multidão, a parada de Jesus, a pergunta, a visão devolvida. Um versículo que parece ser apenas ligação narrativa, matéria de costura entre uma cena e outra, e que mesmo assim carrega todo o peso do que ainda vai acontecer.
O Cerne
Há algo desconcertante em perceber que a salvação deste homem começa com um boato. Ele não viu nada, não teve visão nem sonho; dependeu inteiramente de que alguém lhe dissesse. A fé, aqui, nasce de ouvir, e o que se ouve é escasso: um nome e um lugar de origem. "Jesus Nazareno" era praticamente uma forma de identificação civil, o equivalente a dizer "aquele sujeito de Nazaré". Ninguém naquela multidão estava pregando. E, ainda assim, Deus trabalha com esse material pobre. O cego ouvirá "Nazareno" e gritará "Filho de Davi", fazendo um salto que a informação recebida não autorizava. Entre o que lhe foi dito e o que ele confessou existe um espaço que só o Espírito preenche. Vale demorar-se nesse espaço, em vez de explicá-lo rápido demais.
O Fio Condutor
Jericó é a última parada antes de Jerusalém. Jesus acabou de dizer aos doze que subiriam até lá, que ele seria entregue, escarnecido, cuspido, morto, e que ao terceiro dia ressuscitaria, e Lucas anota secamente: "elles nada d'estas coisas entendiam, e esta palavra lhes era encoberta". Os que enxergam não veem. Alguns versículos depois, um cego ouve dizer que passa um homem de Nazaré e enxerga nele o Filho de Davi, o herdeiro da promessa, aquele que sobe a Jerusalém para reinar por um caminho que ninguém imaginava. O fio que atravessa toda a Escritura passa exatamente aqui: Deus revelando o seu Messias não aos informados, mas aos que pedem misericórdia. O cego mendigo entende a história da redenção melhor do que os discípulos que a ouviram explicada.
O Espelho
Quantas vezes você já foi a multidão desse versículo? Falou de Jesus sem peso, respondeu uma pergunta sobre fé no corredor da escola, no grupo da família, na mesa do almoço, sem imaginar que aquela frase comum poderia ser a porta por onde alguém entra. O versículo 37 é um alívio e uma inquietação ao mesmo tempo: o que você diz de passagem pode ser mais decisivo do que você jamais saberá, e por isso mesmo vale a pena dizer. Mas talvez você esteja do outro lado, sentado à beira do caminho de uma vida que não anda, ouvindo um barulho de movimento que não o inclui, sem saber o que perguntar. Hoje, faça o que o cego fez primeiro: pergunte. Diga em voz alta, sozinho, o que você ainda não entende sobre Jesus, nomeando exatamente isso, e peça que lhe seja dito.
O Personagem Principal
O cego aparece sem nome, sentado, mendigando, numa posição que o mundo já tinha resolvido como definitiva. Mas repare no que ele faz quando ouve o barulho: não se conforma com o ruído, pergunta. Há nele uma inquietação que a cegueira não apagou, uma recusa em deixar a vida passar sem saber o que está passando. É uma espiritualidade feita de atenção: ouvir, perguntar, insistir. Quando lhe dizem apenas "Jesus Nazareno", ele não discute a pobreza da informação; trabalha com ela, grita com ela. Depois a multidão tentará calá-lo e ele gritará mais alto. Essa é a figura que Lucas coloca diante de nós às vésperas da cruz: alguém que não enxerga nada e ainda assim não desvia o rosto.
A Pergunta
Por que ele? Havia outros mendigos ao longo daquela estrada, outros cegos em Jericó, e o texto não explica por que a multidão parou justamente ao lado deste, nem por que foi ele quem perguntou naquele instante. Quase ninguém naquela cidade ouviu o nome de Jesus de perto naquele dia; a comitiva passou e seguiu. Podemos dizer que foi graça, e é verdade, mas isso não dissolve o desconforto de perceber quão fina é a linha entre ouvir e não ouvir. Não há resposta limpa aqui. A Escritura deixa esse silêncio aberto, e talvez o modo honesto de habitá-lo seja parar de perguntar por que ele e começar a perguntar por que eu, que ouvi, e o que faço com o que ouvi.
Contexto
Jericó ficava a uns vinte e sete quilômetros de Jerusalém, na descida do vale do Jordão, e nas semanas que antecediam a Páscoa a estrada se enchia de peregrinos subindo para a festa. Daí a multidão: Jesus não caminhava sozinho, ia no meio de um fluxo de gente animada, barulhenta, com expectativas messiânicas no ar. Um cego não tinha ofício possível naquela sociedade; mendigar à beira de uma rota de peregrinação era estratégia, porque dar esmola fazia parte da piedade do viajante. Ele estava, portanto, exatamente onde deveria estar, no lugar mais baixo da escala social e no ponto mais movimentado do caminho. É desse chão, ao lado da estrada, abaixo da linha dos olhos de todos, que sobe a pergunta que muda tudo.
O que você ouviu sobre Jesus de forma casual, quase sem querer, e nunca mais conseguiu esquecer?
Se Jesus passasse hoje pela sua rua e alguém lhe dissesse apenas o nome dele, isso bastaria para você gritar?
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Perguntas frequentes sobre Luke 18:37
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Ele chegou correndo, cheio de perguntas, e foi embora calado. "Mas, ouvindo ele isto, tornou-se muito triste, porque era riquíssimo." A tristeza não nasceu de Jesus pedir demais, nasceu de ele já estar preso. Repare: o que você tem é seu, ou já virou dono de você? Nem sempre a resposta aparece na oração. Aparece quando pedem.
Pai, como Pedro, às vezes olho para trás e conto o que deixei pelo caminho. Ajuda-me a não transformar isso em cobrança, mas em confiança. O que entreguei nas tuas mãos está seguro, e quem te segue nunca sai perdendo.
Obrigado, Senhor, porque mandaste considerar o que diz aquele juiz injusto e, ao olhar para ele, enxergo quem Tu és: nada em Ti é indiferente ou cansado das minhas súplicas. Grato porque não preciso insistir para vencer a Tua má vontade, mas sou recebido por um Pai justo.
Obrigado, Senhor, porque paras e perguntas: "Que queres que eu te faça?" Tu não me tratas como número na multidão, mas ouves o meu pedido com nome e detalhe. Gratidão por poder dizer sem rodeios: "que eu torne a ver", e ser ouvido.
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