Explicação bíblica

Lucas 23:20

Bíblia

O Texto

Pilatos já declarou duas vezes que não encontra culpa alguma naquele homem; a multidão, porém, acaba de gritar pedindo a soltura de Barrabás, um homem preso por sedição e homicídio. E então vem o versículo 20: "Fallou pois outra vez Pilatos, querendo soltar a Jesus." Um detalhe curto, quase administrativo, encaixado entre dois clamores da multidão. O governador toma a palavra mais uma vez, não porque tenha argumentos novos, mas porque quer soltá-lo. O verbo guarda o peso da cena: ele queria. E essa vontade, registrada por Lucas com precisão quase cruel, será atropelada no versículo seguinte por um grito que não argumenta, apenas repete: "Crucifica-o, crucifica-o."

O Cerne

Lucas não está interessado em nos informar sobre o estado emocional de um burocrata romano. Está construindo um argumento teológico com material jurídico. Três vezes o juiz competente declara a inocência do réu, e aqui, no versículo 20, essa inocência ainda está tentando se impor. O que o texto afirma sobre Deus é isto: a morte de Jesus não foi um erro judicial que passou despercebido. Foi reconhecida como injusta pela própria autoridade que a executou. O Cordeiro é inspecionado e aprovado antes de ser levado. E o que o texto afirma sobre o ser humano é igualmente duro: saber o que é certo e querer fazê-lo não salva ninguém. Pilatos queria. A vontade boa, desacompanhada de coragem, é apenas uma forma mais elegante de culpa.

O Fio Condutor

Na Páscoa do Êxodo, o cordeiro era separado dias antes do abate e examinado: tinha de ser sem defeito. O rito exigia um escrutínio público antes do sangue. É exatamente isso que está acontecendo no pretório, só que o inspetor é um pagão e o exame é um processo criminal. Pilatos, sem saber o que faz, cumpre a função do sacerdote que verifica a vítima. "Não acho culpa alguma n'este homem", ele dirá de novo. O plano da redenção não corre por fora da história suja; corre dentro dela, usando tribunais corruptos, políticos covardes e multidões manipuladas. A vontade frustrada de Pilatos é o andaime visível de uma vontade maior que não falha.

O Espelho

Você conhece a vontade de Pilatos por dentro. É a conversa difícil que você queria ter com seu pai e adiou mais um ano. É a injustiça no trabalho que você percebeu, comentou em voz baixa com um colega, e deixou passar porque o custo de falar era alto demais naquele mês. É o nome que você queria defender quando a mesa inteira ria. Querer o bem nos dá uma sensação morna de retidão que funciona como anestésico: eu, pelo menos, não concordava. Lucas desmonta esse consolo em um versículo. Hoje, antes de dormir, diga em voz alta o nome de uma pessoa que você sabe que foi injustiçada e escreva em uma frase o que você fará esta semana a respeito.

O Intertexto

Poucas semanas depois, Pedro reza em Jerusalém dizendo que Herodes e Pôncio Pilatos se ajuntaram contra o santo servo de Deus para fazer aquilo que a mão e o conselho divinos haviam de antemão determinado. É a mesma cena lida do outro lado: não dois fatos concorrentes, mas um só. E Lucas já havia plantado a pista no versículo 12, quando os dois inimigos "entre si se fizeram amigos" no mesmo dia. A inimizade humana se reconcilia em torno da rejeição do Inocente; a verdadeira reconciliação, no entanto, acontecerá algumas horas depois, naquele madeiro, e não entre dois políticos, mas entre Deus e os seus inimigos.

O Personagem Principal

Pilatos é o homem que tem todo o poder e nenhuma autoridade sobre si mesmo. Roma lhe deu o direito de matar; ninguém lhe deu a firmeza de absolver. Ele é um funcionário com reputação frágil, já desgastado diante do imperador, e calcula que uma vida inocente custa menos do que um relatório ruim. Note o que ele propõe: "Castigal-o-hei pois, e soltal-o-hei." Açoitar um inocente para acalmar os acusadores. É a lógica do meio-termo, que sempre se apresenta como prudência e quase sempre termina em covardia. No versículo 24 ele "julgou que devia fazer o que elles pediam", e a palavra julgar nunca foi usada de modo tão vazio.

Contexto

Estamos na manhã da sexta-feira da Páscoa, provavelmente em torno das seis horas, em Jerusalém lotada de peregrinos. O prefeito romano subia de Cesareia justamente nas festas, porque multidões e memórias de libertação nacional eram combustível perigoso. A acusação que lhe apresentam foi traduzida para a linguagem que Roma entende: alguém que "prohibe dar o tributo a Cesar" e se diz rei é insurreição, não heresia. Ironicamente, o homem que eles pedem no lugar dele, Barrabás, foi preso exatamente por sedição e homicídio, isto é, pelo crime de que Jesus é falsamente acusado. O culpado real sai livre, o Inocente ocupa a cela dele. O evangelho inteiro cabe nessa troca.

Reflexão

Onde, nesta semana, você percebeu o que era justo e escolheu o "castigal-o-hei pois" de Pilatos, uma solução intermediária que acalmasse a pressão sem lhe custar nada?

Se Barrabás é a figura mais clara do pecador que recebe a liberdade pertencente a outro, o que muda na sua oração quando você se coloca no lugar dele em vez do lugar de Pilatos?

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Perguntas frequentes sobre Luke 23:20

Respostas rápidas às perguntas mais comuns sobre esta passagem bíblica.

O que significa Lucas 23:20?
Pilatos já declarou duas vezes que não encontra culpa alguma naquele homem; a multidão, porém, acaba de gritar pedindo a soltura de Barrabás, um homem preso por sedição e homicídio. E então vem o versículo 20: "Fallou pois outra vez Pilatos, querendo soltar a Jesus." Um detalhe curto, quase administrativo, encaixado entre dois clamores da multidão.
Sobre o que fala Lucas 23:20?
Na Páscoa do Êxodo, o cordeiro era separado dias antes do abate e examinado: tinha de ser sem defeito. O rito exigia um escrutínio público antes do sangue. É exatamente isso que está acontecendo no pretório, só que o inspetor é um pagão e o exame é um processo criminal. Pilatos, sem saber o que faz, cumpre a função do sacerdote que verifica a vítima.
Qual é o contexto histórico de Lucas 23:20?
Poucas semanas depois, Pedro reza em Jerusalém dizendo que Herodes e Pôncio Pilatos se ajuntaram contra o santo servo de Deus para fazer aquilo que a mão e o conselho divinos haviam de antemão determinado. É a mesma cena lida do outro lado: não dois fatos concorrentes, mas um só. E Lucas já havia plantado a pista no versículo 12, quando os dois inimigos "entre si se fizeram amigos" no mesmo dia.
O que Lucas 23:20 nos ensina sobre o caráter de Deus?
Estamos na manhã da sexta-feira da Páscoa, provavelmente em torno das seis horas, em Jerusalém lotada de peregrinos. O prefeito romano subia de Cesareia justamente nas festas, porque multidões e memórias de libertação nacional eram combustível perigoso.
Como Lucas 23:20 continua relevante hoje?
Se Barrabás é a figura mais clara do pecador que recebe a liberdade pertencente a outro, o que muda na sua oração quando você se coloca no lugar dele em vez do lugar de Pilatos?
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.

Reflexão Editorial em versículo 29

Ele caminha para a cruz e ainda assim o olhar dele não está em si mesmo: "Bem-aventuradas as estéreis, os ventres que não geraram". Numa terra onde não ter filhos era vergonha, essas palavras assustam. Jesus chora o que vem sobre Jerusalém. E você, por quem tem chorado? Às vezes lamentamos a dor errada e ignoramos a que realmente nos ameaça.

Reflexão Editorial em versículo 14

Apresentastes-me este homem como agitador do povo; mas, tendo-o interrogado na vossa presença, nada verifiquei contra ele dos crimes de que o acusais." Pilatos viu a verdade e mesmo assim entregou Jesus. Saber o certo não basta. Quantas vezes você já reconheceu o justo por dentro e cedeu à pressão por fora?

Oração Editorial em versículo 45

Pai, quando o sol se apagou e o véu se rasgou, ficou claro que nada mais me separa de ti. Mesmo nos meus dias escuros, sei que a porta está aberta. Obrigado por me receber assim como estou, sem distância, sem medo.

Oração Editorial em versículo 42

Jesus, no fim de tudo, quando eu não tiver nada nas mãos para oferecer, lembra de mim. Não venho com méritos, venho com o pouco que sou. Basta que me olhes e me acolhas no teu reino. Confio nisso, mesmo quando a fé é só um fio.

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