Lucas 24:15
O Texto
Dois caminhantes deixam Jerusalém conversando sobre o que acabou de acontecer, trocando perguntas que não têm resposta, remoendo a derrota. E então, sem anúncio, sem trovão, sem luz: "o mesmo Jesus se approximou, e ia com elles". Não os chama, não os interrompe, não corrige. Apenas se aproxima e passa a caminhar no ritmo deles, na mesma estrada, na mesma direção, que é a direção errada. O versículo não diz que eles o viram. Diz que ele veio. A frase é tão simples que quase escapa, e talvez seja essa a questão: o Ressuscitado entra na cena pela porta mais discreta possível, caminhando.
O Cerne
Repare na expressão: "o mesmo Jesus". Lucas poderia ter escrito apenas "Jesus", mas insiste no "mesmo", e esse pequeno reforço carrega um peso enorme. O que caminha ali não é uma ideia de ressurreição, nem uma presença difusa, nem a memória de um mestre amado. É ele, aquele mesmo, com as mesmas mãos marcadas que mostrará mais tarde. A ressurreição, em Lucas, não dissolve Jesus numa espiritualidade vaga; ela o devolve ao chão, à estrada, ao passo humano. E há algo ainda mais desconcertante: ele se aproxima antes de ser reconhecido, antes de ser desejado, antes de ser crido. A graça aqui não é resposta à fé desses dois homens. Eles estão indo embora. Ele vai junto. Quanto da nossa caminhada já foi acompanhada sem que soubéssemos?
O Fio Condutor
Deus caminhando ao lado de quem vai na direção errada não é novidade na Escritura; é um padrão antigo. Ele desce ao jardim e procura os que se escondem. Acompanha Jacó fugitivo e o encontra dormindo numa pedra. Vai atrás de Elias deprimido até a caverna e começa com uma pergunta, não com uma repreensão. Em Emaús esse padrão alcança sua forma definitiva: Deus não apenas acompanha, ele tem pés. O Verbo que se fez carne continua carne depois do túmulo, e a encarnação não foi um disfarce temporário que a ressurreição descartou. O caminho para Emaús é a estrada de todo o plano de redenção condensada em sessenta estádios: Deus vindo ao encontro de gente que desistiu, no passo dela, antes de ela entender coisa alguma.
O Espelho
Há estradas de Emaús bem concretas. O trajeto de volta do hospital depois de um diagnóstico. O caminho para casa no dia em que o casamento finalmente ruiu, ou em que a empresa fechou, ou em que o filho disse aquilo que não se desdiz. Conversamos sobre essas coisas como Cleopas conversava: em voz baixa, com outra pessoa que também não sabe, perguntando um ao outro. E a tentação é supor que Deus ficou em Jerusalém, no lugar onde as coisas ainda faziam sentido, onde havia templo e esperança e liturgia. Este versículo não resolve a sua tristeza. Ele apenas insinua que você talvez não esteja tão sozinho quanto sente, e que o reconhecimento vem depois, não antes. Hoje, faça isto: caminhe dez minutos, sem fone de ouvido e sem telefone, dizendo em voz alta a Deus a pergunta que você vem remoendo com os outros. Não peça resposta. Apenas diga em voz alta, caminhando.
O Personagem Principal
O centro aqui não são os dois, é Jesus, e o que ele faz é quase incompreensível. Ele acaba de vencer a morte. Poderia ter aparecido no templo, diante de Caifás, em glória visível. Escolhe uma estrada secundária e dois discípulos cujos nomes a história mal registra, um deles sem nome algum. E escolhe o anonimato: "os olhos d'elles estavam retidos". Ele se aproxima, e depois pergunta, e depois escuta a versão deles dos fatos, incluindo a parte em que dizem "nós esperavamos". Aquele que sabe tudo deixa que lhe contem tudo. Há nisso uma paciência que nos constrange. O Ressuscitado não tem pressa de ser reconhecido; tem pressa de estar perto. Essa é a forma do amor de Deus: presença antes de revelação, companhia antes de explicação.
Contexto
É ainda o domingo, o mesmo dia da manhã do túmulo vazio. A notícia das mulheres já circulou e foi recebida como "desvario". Jerusalém, nesses dias, era uma cidade perigosa para simpatizantes de um crucificado; o movimento fora decapitado publicamente e qualquer seguidor fazia bem em sumir. Sair da cidade ao entardecer, rumo a uma aldeia pequena, é um gesto de quem encerra um capítulo. Esses dois carregam a expectativa messiânica mais comum de sua geração: "nós esperavamos que fosse elle o que remisse Israel", ou seja, libertação política, Roma expulsa, o trono de Davi restaurado. A cruz não contradisse apenas um homem; desmontou uma esperança nacional inteira. Eles não caminham tristes por luto pessoal somente. Caminham tristes porque Deus, aparentemente, perdeu.
O Intertexto
Vale colocar lado a lado este versículo e o final do mesmo capítulo: "E aconteceu que, abençoando-os elle, se apartou d'elles e foi elevado ao céu". Lucas emoldura seu último capítulo entre uma aproximação silenciosa e uma partida abençoadora, como se dissesse que a presença de Cristo nunca é estática: ele vem quando não o esperamos e se retira quando já o reconhecemos, para que o procuremos de outro modo. E ecoa aqui Gênesis 18, quando três viajantes se aproximam da tenda de Abraão e um deles é o Senhor. A Escritura insiste nessa cena: Deus chegando a pé, em roupa de estranho, e tudo dependendo de recebê-lo à mesa. Em Emaús também será à mesa, no pão partido, que os olhos se abrem.
Reflexão
Em que trecho da sua vida você concluiu, com toda a lógica do mundo, que Deus havia ficado para trás, e o que mudaria se ele estivesse caminhando ao seu lado desde o começo, ainda sem ser reconhecido?
Jesus escuta a versão triste e incompleta dos fatos antes de corrigi-la. Você tem permitido a si mesmo contar a Deus a sua versão, inteira, antes de buscar a explicação certa?
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Perguntas frequentes sobre Luke 24:15
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Obrigado porque Pedro, mesmo depois de Te negar, pôde levantar-se e correr ao sepulcro. Obrigado pelos panos de linho deixados ali, prova silenciosa de que a morte não Te segurou. Obrigado por me devolveres o espanto diante do túmulo vazio.
Ele não está aqui, mas ressuscitou. Lembrai-vos de como vos falou, estando ainda na Galileia." Elas já sabiam. Jesus tinha dito, com todas as letras, antes da cruz. Mas a dor apaga a memória, e a gente volta ao túmulo procurar quem já saiu de lá. Qual promessa dele você esqueceu esta semana?
Senhor, às vezes chego ao lugar onde disseram que Tu estavas e só encontro vazio. Ouço os relatos, quero crer, mas meus olhos ainda não te veem. Caminha comigo nesse trecho de dúvida e abre meus olhos quando for tempo.
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