Marcos 12:17
O Texto
A moeda passa de mão em mão até cair na palma aberta de Jesus. Ele a ergue entre dois dedos, à luz do pátio do templo, e não responde à pergunta que lhe fizeram; faz outra: de quem é este rosto gravado, de quem é esta inscrição? Eles respondem o óbvio, "De Cesar", e aí vem a frase que atravessaria vinte séculos: "Dae pois a Cesar o que é de Cesar, e a Deus o que é de Deus." A armadilha era simples e mortal: dizer sim ao imposto seria trair o povo, dizer não seria sedição diante de Roma. Jesus não escolhe nenhuma das duas portas. Abre uma terceira. E o texto registra a reação exata: "E maravilharam-se d'elle."
O Cerne
A pergunta decisiva não é sobre impostos, é sobre imagens. Se a moeda traz a imagem de César e por isso lhe pertence, então o que traz a imagem de Deus pertence a Deus, e o leitor que conhece Gênesis sabe que essa imagem está estampada em cada rosto humano, inclusive no de Tibério. César recebe metal; Deus reivindica a pessoa inteira. Jesus não divide a realidade em dois andares, religião em cima e política embaixo, como se o Senhor ficasse com o domingo e o Estado com o resto. Ele relativiza César exatamente ao conceder-lhe algo pequeno. O imposto é devolvido sem drama porque pertence a uma ordem passageira; a vida, essa não se entrega a ninguém além daquele cuja marca carregamos.
O Fio Condutor
Marcos coloca esta cena logo depois da parábola dos lavradores assassinos, e não por acaso. Ali o dono manda "um seu filho amado" e os arrendatários calculam: "Este é o herdeiro; vamos, matemol-o, e a herança será nossa." A vinha é Israel, e a acusação é que seus guardiões trataram o que era de Deus como propriedade própria. Agora chegam os mesmos interlocutores perguntando sobre propriedade: o que pertence a César? Jesus devolve a questão ao solo da criação. Deus nunca abriu mão da sua vinha. E o Filho amado, que dirá dentro de poucos dias "não o que eu quero, mas o que tu queres", é o único que de fato cumpre a frase que pronuncia: entrega a Deus o que é de Deus, sem reter nada.
O Espelho
Existe uma astúcia muito nossa em separar compartimentos. O imposto de renda numa gaveta, a honestidade na outra. O modo como você fala com o subordinado no trabalho não entra no mesmo cálculo que a oração da manhã. O dinheiro é "assunto prático", o casamento é "assunto privado", a fé é "assunto espiritual". Jesus desmonta a arquitetura inteira com uma pergunta sobre um rosto gravado em metal. Se você carrega a imagem de Deus, não há zona neutra, não há parte da sua agenda que esteja fora do alcance dele. E note a hipocrisia denunciada no versículo 15: eles elogiam Jesus antes de tentar derrubá-lo. Também sabemos fazer isso, louvar na quarta à noite e manipular na quinta de manhã. Hoje, pegue uma nota ou moeda na carteira, olhe para ela por um instante e diga em voz alta: "Isto é de César. Eu sou de Deus."
O Protagonista
Jesus está encurralado, e sabe. O texto diz que ele conhecia a hipocrisia deles, o que significa que ouviu o elogio lisonjeiro sabendo exatamente o que vinha atrás. Nenhum sinal de pânico, nenhuma defesa irritada. Ele pede a moeda, e aí está um detalhe silencioso: ele não tem uma no bolso. Quem a produz são os acusadores, dentro do pátio do templo. O homem que não possui nada interroga os que possuem. Há nele uma liberdade quase insuportável, a liberdade de quem não deve nada a Roma nem ao partido oposto, de quem não precisa ganhar a discussão para existir. É essa serenidade que provoca o espanto final. Não ficaram convencidos; ficaram desarmados.
Contexto
Estamos na última semana. Jesus entrou em Jerusalém aclamado, virou as mesas dos cambistas e agora ensina no templo cercado por delegações que se revezam para apanhá-lo numa palavra. Os fariseus detestavam o domínio romano; os herodianos viviam dele. Que esses dois grupos apareçam juntos já diz tudo sobre o desespero da coalizão. O imposto em questão era o tributo per capita pago diretamente ao imperador, símbolo concreto de ocupação, e havia memória viva de revoltas sangrentas motivadas por ele. A moeda trazia a efígie de Tibério com a inscrição que o chamava filho do divino Augusto. Era, para judeus devotos, uma pequena blasfemia circulando de mão em mão no próprio recinto sagrado.
O Perfil
Marcos escreve para cristãos que vivem debaixo do mesmo império, provavelmente em Roma, provavelmente já tendo visto irmãos presos ou mortos. Para eles a pergunta "daremos ou não daremos?" não era teoria de seminário. Era: pagamos o tributo a um Estado que persegue? Obedecemos até onde? A resposta de Jesus não lhes dá um programa político, dá algo mais firme: o império tem direito ao seu metal e não tem direito à sua alma. Pague o imposto, cumpra a lei, e quando exigirem adoração, diga não, porque aquilo já tem dono. Os primeiros leitores ouviram nessa frase tanto uma permissão para viver em paz quanto uma recusa que podia custar a vida.
Reflexão
Qual área da sua vida você vem tratando como "de César", isto é, como zona neutra onde a autoridade de Deus simplesmente não entra?
Quando alguém o elogia antes de lhe pedir algo, você percebe? E quando é você quem elogia antes de pedir, o que está realmente tentando conseguir?
Livros cristãos que valem a pena
Livros escolhidos a dedo, disponíveis no seu idioma.
À espera do Natal: 25 leituras de Advento, de 1 a 25 de dezembro, guiadas pelo livro de Lucas. Davi, Zacarias, Maria e José, uma pessoa de hoje por...
Uma defesa clara e acessível das verdades centrais da fé cristã que fortalece a mente e o coração.
Uma alegoria atemporal da jornada cristã que inspira perseverança diante das provações da vida.
Um testemunho profundamente pessoal da graça de Deus que ensina a buscar descanso somente em Cristo.
Um chamado corajoso a seguir Jesus com fidelidade, custe o que custar.
Um convite ardente a cultivar intimidade com Deus e sede pela Sua presença.
Faith.network earns a small commission on Kobo purchases made through these links, at no extra cost to you. It helps keep the studies free.
Perguntas frequentes sobre Mark 12:17
Respostas rápidas às perguntas mais comuns sobre esta passagem bíblica.
O que significa Marcos 12:17?
Sobre o que fala Marcos 12:17?
Qual é o contexto histórico de Marcos 12:17?
O que Marcos 12:17 nos ensina sobre o caráter de Deus?
Como Marcos 12:17 continua relevante hoje?
O que a comunidade compartilha sobre Mark 12
Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Pai, tudo o que tenho nas mãos foi plantado e cuidado por ti antes de chegar até mim. Ajuda-me a lembrar que sou cuidador, não dono. Que eu trate com carinho a vida, as pessoas e o tempo que me confiaste.
Não estás longe do reino de Deus." Pensa no peso dessa frase. O escriba acertou tudo, entendeu que amar vale mais que sacrifícios, e Jesus o elogiou. Mas perto não é dentro. Dá para conhecer a resposta certa e nunca atravessar a porta. O que ainda te segura a poucos passos de entrar?
Aquele escriba falava dentro do templo, com o cheiro dos sacrifícios ainda no ar, e mesmo assim reconheceu que amar "excede a todos os holocaustos e sacrifícios". Ele admitiu que o mais caro do seu mundo valia pouco sem amor. Pergunta difícil: o que você tem oferecido a Deus justamente para não precisar amar alguém?
Enviou-lhes ainda outro servo, e eles o esbordoaram na cabeça e o insultaram." O primeiro voltou machucado, e mesmo assim o dono mandou outro. Essa insistência é o retrato de Deus contigo. Quantas vezes Ele já bateu à tua porta depois de ter sido ignorado? A pergunta não é se Ele desiste. É quando tu vais abrir.
Explore esta passagem em outro nível
Iniciante, teólogo ou uma leitura de outro tamanho? Ajuste as configurações e gere sua própria versão.
Abrir na ferramenta de estudo
