Mateus 19:28
O Texto
Pedro acabou de fazer a pergunta que todos nós engolimos: deixámos tudo, e agora, o que ganhamos com isso? Jesus não o repreende. Responde com uma promessa de dimensões cósmicas: haverá uma "regeneração", um recomeço de todas as coisas, e nesse momento o Filho do homem se assentará "no throno da sua gloria". E os doze que o seguiram não ficarão de pé no fundo da sala; sentar-se-ão também, em doze tronos, "para julgar as doze tribus d'Israel". A recompensa não é um prémio de consolação entregue à porta do Reino. É participação no próprio governo de Cristo, uma partilha do assento real daquele que, naquele momento, caminhava a pé para Jerusalém sem lugar algum onde reclinar a cabeça.
O Cerne
A palavra decisiva é "regeneração", em grego palingenesia, literalmente "nascer de novo", mas aqui não aplicada a uma alma e sim ao mundo inteiro. Jesus não promete fuga da criação; promete a criação refeita. E é aí que a resposta a Pedro deixa de ser sobre salário e passa a ser sobre identidade. Deus não recompensa o discípulo com coisas; recompensa-o consigo mesmo, dando-lhe lugar no governo do mundo renovado. O jovem rico recusou vender o que tinha para ganhar "um thesouro no céu"; Pedro, que deixou barcos e redes, descobre que o tesouro é um trono. O Reino não funciona por mérito acumulado, mas por associação: quem se liga ao Rei herda aquilo que pertence ao Rei. E note-se quem recebe a promessa: homens que, poucos capítulos adiante, fugirão todos.
O Fio Condutor
Doze tronos, doze tribos. O número não é decorativo. Jesus escolheu doze discípulos precisamente porque estava a reconstituir Israel em torno de si, e quem ouvisse esta frase entenderia logo: aqueles homens são as novas colunas do povo de Deus. Vale lembrar que, na Bíblia hebraica, "julgar" raramente significa presidir um tribunal; os juízes do livro de Juízes eram libertadores, governantes, pessoas que punham o povo de pé outra vez. Então o que Jesus promete não é uma função de magistrado mas um lugar de governo no Israel restaurado. E aqui está o fio que atravessa toda a Escritura: Deus sempre quis um povo que reinasse com ele, desde o mandato dado em Gênesis para cuidar da terra até à nova criação. O caminho para esse trono, porém, passa por Jerusalém, e no capítulo seguinte Jesus terá de explicar aos filhos de Zebedeu que os lugares à sua direita e esquerda custam um cálice amargo.
O Espelho
A pergunta de Pedro é mais honesta do que as nossas. Nós não perguntamos "qual será então o nosso galardão?"; nós ruminamos. Ruminamos o emprego que não aceitámos porque implicava mudar de cidade e deixar a igreja, o dinheiro que entregámos e que agora faria falta, o domingo após domingo dado a adolescentes que não agradecem, o filho criado na fé que hoje não quer saber. Por baixo de tudo isso corre uma contabilidade silenciosa: valeu a pena? Jesus não envergonha Pedro por perguntar. Dá-lhe uma resposta que é maior do que a pergunta, e que desloca o eixo: não um reembolso, mas um lugar no governo do mundo refeito. Hoje, pegue numa folha e escreva uma única linha com aquilo que seguir Jesus lhe custou de mais concreto, com nome e data. Depois escreva por baixo, à mão, as palavras "tambem vos assentareis", e guarde o papel onde o volte a ver.
O Perfil
Imagine os ouvintes: galileus sob ocupação romana, gente que pagava impostos a César e ouvia dizer que dez das doze tribos se tinham perdido séculos antes nos exílios assírios. Falar das "doze tribus d'Israel" como realidade futura era afirmar que Deus não desistiu daquilo que a história deu por morto. E os destinatários da promessa eram pescadores, um cobrador de impostos, homens sem instrução rabínica nem património. Dizer-lhes que se sentariam em tronos era politicamente explosivo e socialmente absurdo. Para o primeiro leitor de Mateus, provavelmente judeu-cristão expulso da sinagoga e a perguntar-se se tinha apostado no cavalo errado, esta frase funcionava como escritura de propriedade: a comunidade pequena e desprezada é que detém o futuro de Israel, não os que a expulsaram.
O Intertexto
A frase ecoa Daniel 7, onde o profeta vê tronos sendo postos, um semelhante a um filho de homem recebendo domínio eterno, e o reino sendo entregue aos santos do Altíssimo. Jesus não inventa a imagem; reivindica-a para si e inclui os doze nela. O mesmo eco regressa em Lucas 22, na última ceia, onde Jesus repete a promessa dos tronos minutos antes de anunciar que Pedro o negará. Paulo alarga o círculo em 1 Coríntios 6, ao perguntar aos coríntios se não sabem que os santos hão de julgar o mundo, e usa isso para os envergonhar por se arrastarem a tribunal uns contra os outros. Mas há tensão, e convém não a suavizar: um dos doze era Judas. E a frase seguinte no próprio capítulo corta qualquer presunção, "muitos primeiros serão os derradeiros".
A Personagem Principal
Quem fala é um homem a caminho da morte. Jesus acabou de atravessar o Jordão rumo à Judeia, sabe o que o espera, e fala do "throno da sua gloria" com a naturalidade de quem já o ocupa. Não há bravata nisto; há a serenidade de quem conhece o fim da história. O que mais impressiona é a sua generosidade diante de uma pergunta interesseira. Pedro mede, calcula, quase negoceia, e Jesus dá-lhe infinitamente mais do que ele pediu, sabendo perfeitamente que este mesmo homem vai jurar não o conhecer. A promessa não depende da qualidade do discípulo. Depende do Rei, que distribui o seu próprio trono como quem parte pão.
Reflexão
Que contabilidade silenciosa anda a fazer sobre aquilo que a fé lhe custou, e o que mudaria se a resposta fosse um lugar no governo de Cristo em vez de uma compensação?
Jesus promete tronos a homens que sabe que o abandonarão: o que é que isso lhe diz sobre a segurança do que Deus lhe prometeu a si?
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Perguntas frequentes sobre Matthew 19:28
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Pai, obrigado por não afastar ninguém que se aproxima de ti, nem mesmo os pequenos e os que parecem atrapalhar. Ensina-me a receber as pessoas como tu recebes e a chegar até ti com um coração simples, sem fingir ser maior do que sou.
Os fariseus queriam discutir motivos para separar. Jesus voltou ao começo: "o que Deus ajuntou não o separe o homem". Repare em quem age. Deus ajunta; a nós cabe apenas não separar. Talvez o cuidado com seu casamento hoje não seja segurar tudo com força, mas parar de puxar as pontas para lados opostos.
Disseram-lhe eles: Por que mandou, então, Moisés dar carta de divórcio e repudiar?" Repare no verbo: eles dizem "mandou", mas Jesus responde que Moisés apenas "permitiu". Transformaram um remédio para a dureza do coração em ordem divina. Quantas vezes fazemos isso, procurando na Bíblia uma autorização para o que já decidimos, em vez de deixá-la amolecer o que endureceu em nós?
Senhor, como Pedro, às vezes olho para o que deixei e pergunto o que ganho com isso. Perdoa quando meu coração faz contas em vez de confiar. Ensina-me que te seguir já é o maior presente, e que contigo nada se perde.
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