Explicação bíblica

Mateus 21:42

Bíblia

O Texto

No pátio do templo, cercado pelos chefes dos sacerdotes que acabam de pronunciar, sem perceber, a sentença contra si mesmos, Jesus não responde com um argumento novo. Ele abre a Escritura deles. "Nunca lestes nas Escripturas: A pedra, que os edificadores rejeitaram, essa foi posta por cabeça do angulo?" A pergunta é quase cruel na sua cortesia: claro que leram, cantaram esse salmo na Páscoa, talvez naquela mesma semana. Jesus pega a imagem de uma obra, pedreiros examinando blocos, um deles descartado como imprestável, jogado fora do canteiro; e esse mesmo bloco acaba sustentando o ângulo de todo o edifício. E acrescenta de quem é a obra: "pelo Senhor foi feito isto, e é maravilhoso aos nossos olhos". A rejeição humana virou o método divino.

O Cerne

Aqui está o escândalo que nenhum cristão deveria domesticar: Deus constrói o seu reino com aquilo que os construtores oficiais jogaram no entulho. Não apesar da rejeição, mas através dela. Os homens encarregados de reconhecer o que vem de Deus, treinados para isso, especialistas no texto, olham para o Filho e dizem "não serve". E Deus responde colocando exatamente aquela pedra no ponto de maior carga do edifício. Isso diz algo desconcertante sobre nós: a competência religiosa não protege do erro fatal: pode até agravá-lo. E diz algo sobre Deus: ele não é derrotado pela recusa humana, ele a integra no seu plano sem jamais desculpá-la. A cruz não é o fracasso do projeto. É a pedra angular. E chamar isso de "maravilhoso" significa que diante disso só cabe assombro, nunca cálculo.

O Fio Condutor

Jesus não inventa a imagem, ele a colhe do Salmo 118, o canto de peregrinação que a multidão tinha gritado dias antes na estrada do monte das Oliveiras: "bemdito o que vem em nome do Senhor". Quem conhece o salmo sabe o que vem logo depois: a pedra rejeitada. A procissão já tinha citado o início; Jesus agora completa a frase. E o padrão é antigo. Israel aprendeu desde cedo que Deus escolhe o irmão descartado, o caçula esquecido no pasto, o povo pequeno entre impérios. A lógica da eleição divina sempre contrariou o olho treinado dos construtores. O que acontece em Jerusalém naquela semana não é uma exceção trágica na história da salvação; é essa mesma história chegando ao seu ponto mais denso, onde o Filho é o descartado e a cruz é o canteiro de obras.

O Espelho

Existe uma forma de piedade que se torna perita em avaliar pedras. Você aprende a reconhecer o que é sólido, o que é sentimentalismo, qual pregação tem substância, qual irmão é confiável, qual filho vai dar certo. Essa capacidade de julgar é útil, e é exatamente por isso que ela é perigosa: os homens que rejeitaram a pedra angular não eram descuidados, eram os melhores leitores da sua geração. Pense em quem você já descartou mentalmente do canteiro: o colega que não acompanha o ritmo, o parente que sempre erra, o adolescente que você já classificou como fase perdida, aquele sonho que você mesmo abandonou por não parecer utilizável. Hoje, escreva num papel o nome da pessoa que você já deu por imprestável, e diga em voz alta, olhando para o nome: "esta pedra talvez tenha sido posta pelo Senhor."

O Detalhe

Repare no pronome: "é maravilhoso aos nossos olhos". Jesus está acusando aqueles homens de rejeição, está prestes a dizer que o reino lhes será tirado, e mesmo assim cita um texto em primeira pessoa do plural. Ele não diz "aos meus olhos" nem "aos olhos deles". Diz "nossos", a voz da congregação que canta junto. É como se, no meio da sentença, uma porta ficasse encostada. Vocês ainda podem estar entre os que se admiram em vez de tropeçar. A condenação do versículo 43 é real e vem logo em seguida, mas aqui, por um instante, Jesus oferece aos seus acusadores um lugar no coro. A graça não aparece depois do juízo; ela aparece dentro da frase do juízo.

Contexto

Estamos na terça-feira da última semana, no pátio do templo, provavelmente num daqueles pórticos onde os mestres ensinavam sentados e o povo se aglomerava. O templo de Herodes ainda estava em obra havia décadas: havia blocos de pedra espalhados, andaimes, pedreiros trabalhando a poucos metros dali. A metáfora não era literária, era paisagem. Os chefes dos sacerdotes eram a elite econômica e política da cidade, administradores de um sistema de sacrifícios que Jesus tinha desmontado na véspera, virando as mesas dos cambistas. Eles tinham poder para prender, mas não coragem: "pretendendo prendel-o, receiaram o povo". Toda a cena acontece sob essa tensão, homens poderosos imobilizados pela popularidade de um galileu que acabou de chamá-los de construtores incompetentes.

O Intertexto

O próprio Salmo 118 é a chave, e é duplamente eloquente aqui: era um dos cânticos da Páscoa, cantado pelas famílias naquela mesma semana, e já tinha sido gritado pela multidão na entrada de Jesus na cidade. Os sacerdotes conheciam cada palavra. O segundo eco vem depois: semanas mais tarde, diante desse mesmo tribunal, Pedro usará exatamente esta imagem da pedra rejeitada para explicar a cura de um coxo, apontando o dedo para os mesmos homens e identificando-os como os edificadores. A igreja primitiva entendeu, portanto, que o versículo 42 não era um comentário de passagem, mas a chave para ler a cruz inteira: o tribunal humano errou, e o veredito de Deus foi a ressurreição.

Reflexão

Onde, na sua vida prática desta semana, você age como avaliador de pedras, e o que aconteceria se descobrisse que descartou justamente aquela que Deus escolheu?

Jesus incluiu seus acusadores no "nossos olhos". Você consegue ouvir uma repreensão dura sem se fechar, ou o constrangimento já endurece você antes que a porta se feche?

Aprofunde-se em Matthew

Livros selecionados a dedo que aprofundam ainda mais este livro da Bíblia.

À espera do Natal

À espera do Natal

Faith.network

À espera do Natal: 25 leituras de Advento, de 1 a 25 de dezembro, guiadas pelo livro de Lucas. Davi, Zacarias, Maria e José, uma pessoa de hoje por...

Mateus: Introdução e Comentário

Mateus: Introdução e Comentário

R. T. France

Um comentário conciso e confiável, versículo a versículo, que ajuda a entender o propósito de Mateus ao apresentar Jesus como o Messias prometido a Israel.

A Mensagem do Sermão do Monte: Contracultura Cristã

A Mensagem do Sermão do Monte: Contracultura Cristã

John R. W. Stott

Uma exposição calorosa e desafiadora de Mateus 5–7, mostrando como é, na prática, a vida do discípulo no Reino dos céus.

Estudos no Sermão do Monte

Estudos no Sermão do Monte

D. Martyn Lloyd-Jones

Pregações profundas e pastorais sobre o coração do ensino de Jesus em Mateus 5–7, que unem doutrina sólida e exame do coração.

Faith.network earns a small commission on Kobo purchases made through these links, at no extra cost to you. It helps keep the studies free.

Partilhar esta explicação

Ajude a espalhar o evangelho. Envie esta explicação a alguém que possa ser encorajado por ela.

WhatsApp Email Facebook X / Twitter

Perguntas frequentes sobre Matthew 21:42

Respostas rápidas às perguntas mais comuns sobre esta passagem bíblica.

O que significa Mateus 21:42?
No pátio do templo, cercado pelos chefes dos sacerdotes que acabam de pronunciar, sem perceber, a sentença contra si mesmos, Jesus não responde com um argumento novo. Ele abre a Escritura deles. "Nunca lestes nas Escripturas: A pedra, que os edificadores rejeitaram, essa foi posta por cabeça do angulo?
Sobre o que fala Mateus 21:42?
Jesus não inventa a imagem, ele a colhe do Salmo 118, o canto de peregrinação que a multidão tinha gritado dias antes na estrada do monte das Oliveiras: "bemdito o que vem em nome do Senhor". Quem conhece o salmo sabe o que vem logo depois: a pedra rejeitada. A procissão já tinha citado o início; Jesus agora completa a frase.
Qual é o contexto histórico de Mateus 21:42?
Repare no pronome: "é maravilhoso aos nossos olhos". Jesus está acusando aqueles homens de rejeição, está prestes a dizer que o reino lhes será tirado, e mesmo assim cita um texto em primeira pessoa do plural. Ele não diz "aos meus olhos" nem "aos olhos deles".
O que Mateus 21:42 nos ensina sobre o caráter de Deus?
O próprio Salmo 118 é a chave, e é duplamente eloquente aqui: era um dos cânticos da Páscoa, cantado pelas famílias naquela mesma semana, e já tinha sido gritado pela multidão na entrada de Jesus na cidade. Os sacerdotes conheciam cada palavra.
Como Mateus 21:42 continua relevante hoje?
Jesus incluiu seus acusadores no "nossos olhos". Você consegue ouvir uma repreensão dura sem se fechar, ou o constrangimento já endurece você antes que a porta se feche?
Realizado com o apoio dos nossos parceiros

O que a comunidade compartilha sobre Matthew 21

Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.

Agradecimento Editorial em versículo 46

Obrigado, Senhor, porque naquele dia as mãos que queriam prender Jesus ficaram paradas pelo temor do povo que o tinha por profeta. Tu seguras os planos dos homens e nada acontece fora da tua hora. Descanso nisso hoje.

Agradecimento Editorial em versículo 19

Obrigado, Senhor, porque não te contentas com folhas. Tu te aproximas de mim procurando fruto de verdade, e isso me livra de viver só de aparência. Obrigado pelo aviso sincero da figueira seca e pela graça que ainda me dá tempo de frutificar.

Explore esta passagem em outro nível

Iniciante, teólogo ou uma leitura de outro tamanho? Ajuste as configurações e gere sua própria versão.

Abrir na ferramenta de estudo