Efésios 3
O Texto
Paulo começa uma frase e não a termina. "Por esta causa eu, Paulo, sou o prisioneiro de Jesus Christo por vós, os gentios" e então, em vez de dizer o que ia dizer, some por onze versículos dentro de uma explicação: preciso que vocês entendam por que estou nesta cela. Ele conta que Deus lhe confiou um segredo escondido por séculos, agora escancarado: que os gentios são "coherdeiros, e de um mesmo corpo, e participantes da sua promessa em Christo". Só no versículo 14 ele retoma o fio interrompido: "me ponho de joelhos perante o Pae". E ora que aqueles leitores sejam fortalecidos por dentro, que Cristo habite neles, que consigam medir um amor que não se deixa medir. Fecha com louvor, não com pedido de socorro.
O Núcleo
O centro deste capítulo não é a experiência espiritual de Paulo, é uma reconfiguração do mundo. Durante séculos, a linha divisória mais real que existia era entre quem estava dentro da aliança e quem estava fora, e o Templo tinha muros de pedra para provar isso. O mistério revelado a Paulo é que Deus nunca planejou um anexo para os gentios: planejou um só corpo. E o mais desconcertante é o versículo 10: essa comunidade misturada, socialmente improvável, existe para que "pela egreja a multiforme sabedoria de Deus seja manifestada aos principados e potestades nos céus". A igreja não é apenas o resultado da salvação; é a exibição pública dela, endereçada a plateias que não vemos. Uma comunidade onde judeu e grego partem o mesmo pão é, em si, argumento teológico.
O Fio Condutor
O que Paulo chama de mistério não é uma novidade improvisada, é uma promessa que sempre teve as nações no horizonte e ninguém percebeu. Deus disse a Abraão que nele todas as famílias da terra seriam abençoadas, e por séculos Israel guardou essa frase sem imaginar que ela significaria mesa comum, corpo comum, herança comum. Paulo insiste no tempo: "n'outros seculos não foi manifestado aos filhos dos homens, como agora é revelado". O agora é a cruz. Foi ali que a parede caiu, e o que era segredo guardado "desde todos os seculos esteve occulto em Deus" virou notícia gritada em praça pública por um judeu preso em Roma. O plano nunca mudou; apenas foi finalmente lido em voz alta.
O Espelho
Note onde Paulo está enquanto escreve tudo isso: acorrentado, e pedindo que os leitores não desanimem por causa das tribulações dele. Ele sabe que o sofrimento de um líder abala os outros mais do que ele mesmo. Você já sentiu isso, talvez ao contrário: a fé de alguém que você admirava rachou, e a sua tremeu junto. Ou o seu próprio trabalho travou, o diagnóstico veio, o casamento esfriou, e a conclusão silenciosa foi que Deus mudou de plano. Paulo responde de outro lugar: dobra os joelhos e pede força "no homem interior", não alívio nas circunstâncias. É uma oração desconfortável, porque não promete que a cela abra. Hoje, ajoelhe-se, literalmente, por dois minutos, e ore por uma pessoa da sua igreja cuja origem, classe ou opinião política faz de vocês dois um argumento improvável de que Deus é sábio.
O Protagonista
Paulo se chama duas coisas na mesma respiração: "o prisioneiro de Jesus Christo" e "o minimo de todos os sanctos". Nenhuma das duas é falsa modéstia. Ele era o homem que arrastava cristãos para fora de casa, e essa memória nunca virou passado inofensivo; virou o solo onde a palavra graça faz sentido. Um homem assim, encarregado de anunciar "as riquezas incomprehensiveis de Christo", carrega uma ironia que ele mesmo saboreia: o perseguidor de gentios convertido em pregador dos gentios, o guardião de muros virado demolidor. E ele não escreve como vítima. Escreve como alguém que descobriu que as correntes não interrompem a missão, apenas mudam seu endereço. A cela é o púlpito. O joelho é o poder.
O Detalhe
Quatro dimensões e nenhum objeto: "a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade". Paulo mede sem dizer o que mede, e só na frase seguinte solta a palavra: o amor de Cristo. É uma frase deliberadamente inacabada, como se ele começasse a estender a trena e desistisse no meio. Ele quer que compreendamos "perfeitamente" algo que "excede todo o entendimento", uma contradição que ele não resolve porque conhecer aqui não é dominar, é ser habitado. E repare no detalhe dentro do detalhe: "com todos os sanctos". Ninguém mede sozinho. Você conhece a largura pelo irmão que enxerga o que você não vê. O amor de Cristo é grande demais para caber numa biografia individual.
O Intertexto
Dois capítulos antes, Paulo já havia dito que Cristo derrubou a parede de separação; aqui ele mostra o resultado arquitetônico: um só corpo, coerdeiros. É a mesma cena vista de dentro. E o contraste mais afiado vem da própria história dele em Atos, quando Ananias hesita porque aquele homem vinha justamente prender os santos. O mesmo Saulo escreve agora que temos "ousadia e accesso com confiança, pela fé n'elle". Quem tinha certeza sobre quem podia se aproximar de Deus terminou explicando a estranhos que a porta está aberta. A doxologia final não é ornamento: é o único jeito de encerrar uma frase que começou com correntes e acabou em plenitude.
Reflexão
Onde, na sua vida, você está esperando que Deus mude as circunstâncias quando ele pode estar oferecendo força "no homem interior"?
Se a sua comunidade é o argumento visível da sabedoria de Deus, que tipo de argumento ela está apresentando neste momento?
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Perguntas frequentes sobre Ephesians 3
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Obrigado, Pai, porque de ti "toma o nome toda família, nos céus e sobre a terra". Dás-me um sobrenome que não se perde: o teu. Grato por me ligares aos irmãos que estão aqui comigo e aos que já partiram, todos na mesma casa, sob o mesmo nome.
o qual, em outras gerações, não foi dado a conhecer aos filhos dos homens, como, agora, foi revelado aos seus santos apóstolos e profetas, no Espírito." Houve um tempo em que isso era segredo guardado. Gerações de gente fiel viveram sem enxergar o que você lê hoje numa manhã qualquer. Não deixe virar rotina o que foi espera de séculos.
Repare no tempo do verbo: "temos". Não é teremos, quando melhorarmos. Agora mesmo, "no qual temos ousadia e acesso com confiança, pela nossa fé nele". O lugar diante de Deus que você tenta merecer já está aberto. A porta não está trancada, e ainda assim você fica parado do lado de fora, esperando permissão.
Pai, eu não cheguei aqui por mérito meu. Foi a tua graça que me alcançou e me colocou a serviço, e é a tua força que me sustenta quando a minha acaba. Que eu nunca esqueça de onde veio tudo isso, e que eu sirva com gratidão, não com orgulho.
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