Efésios 3:19
O Texto
Paulo está de joelhos, no meio de uma oração longa, e chega ao ponto em que a linguagem começa a estalar sob o peso: ele pede que os leitores cheguem a "conhecer o amor de Christo, que excede todo o entendimento". Conhecer aquilo que ultrapassa o conhecimento. É um pedido deliberadamente impossível, e ele sabe disso. E o objetivo desse conhecimento impossível não é uma experiência íntima e privada, mas algo ainda maior: "para que sejaes cheios de toda a plenitude de Deus". Não um pouco de Deus para aguentar a semana. Toda a plenitude. É o clímax de um pedido que começou com força interior e habitação de Cristo no coração, e que termina com pessoas comuns transbordando de Deus.
O Cerne
A palavra grega aqui para "conhecer" é ginōskō, que não descreve o domínio de uma informação, mas o conhecimento que vem do envolvimento, do contato prolongado, da vida partilhada. Por isso o paradoxo funciona: você pode conhecer um amor que nunca cabe na sua cabeça, do mesmo modo que conhece o mar sem jamais tê-lo medido. E note o que Paulo faz com isso: ele não transforma esse amor em objeto de contemplação, mas em causa de plenitude. Ser cheio de Deus é o resultado prático de ser amado por Cristo. O que significa que a vida cristã não avança por esforço acumulado, mas por saturação. Quem é preenchido, derrama. Quem tenta derramar sem ser preenchido, seca, e depois culpa a si mesmo pela secura.
A Linha Condutora
Há uma imagem antiga por trás desse pedido. No Antigo Testamento, a glória de Deus desce e enche um lugar: o tabernáculo no deserto, depois o templo de Salomão, ao ponto de os sacerdotes não conseguirem ficar em pé para ministrar (1 Reis 8). A plenitude de Deus sempre teve endereço. Paulo agora ajoelha e pede que esse mesmo enchimento aconteça em pessoas, gente de Éfeso com dívidas, escravos, comerciantes, ex-adoradores de Ártemis. O templo mudou de material. E o que torna isso possível não é a devoção deles, mas o fato de que Cristo já habita nos corações pela fé, como ele diz no versículo anterior. A linha vai do santuário de pedra ao corpo de Cristo: Deus continua querendo encher aquilo que ele mesmo escolheu habitar.
O Espelho
Se ser cheio da plenitude de Deus é o alvo, então boa parte do que você chama de vida cristã é gerenciamento de escassez. Você calcula: tenho energia para servir na igreja ou para ouvir meu filho, não para os dois. Tenho paciência para o cliente ou para minha esposa às dez da noite. E aí divide o pouco que sobrou, com culpa nas duas pontas. Paulo não está pedindo que você administre melhor; está pedindo outra fonte. Mas há uma aresta aqui: quem é enchido perde o direito de escolher o que fazer com o espaço. Um amor que tem largura, comprimento, altura e profundidade alcança também aquele colega que você já decidiu, silenciosamente, que não merece esforço. O dinheiro que você aperta, o tempo que você defende como se fosse território, o corpo que você trata como máquina: tudo isso entra na conta da plenitude.
Hoje, escreva num papel o nome da pessoa que você tem mais dificuldade em amar, e ao lado do nome escreva as quatro palavras de Paulo: largura, comprimento, altura, profundidade. Depois diga em voz alta, olhando para o nome: o amor de Cristo também mede isso.
Contexto
Paulo escreve preso, e ele mesmo faz questão de dizer isso logo no início do capítulo: "sou o prisioneiro de Jesus Christo por vós, os gentios". Um homem acorrentado, dependente de amigos para comer, escrevendo sobre riquezas incompreensíveis. Éfeso era uma metrópole portuária, orgulhosa do templo de Ártemis, saturada de fórmulas mágicas e amuletos para conseguir poder sobre os espíritos. Numa cidade assim, falar de "principados e potestades nos céus" não era metáfora, era o assunto de todo mundo. E a comunidade cristã ali era mista, judeus e gentios convivendo com códigos sociais incompatíveis: mesa, circuncisão, casamento, comida. A oração de Paulo cai exatamente sobre esse atrito. Ele não pede paz institucional; pede saturação de amor, porque só isso segura pessoas tão diferentes na mesma sala.
O Intertexto
Colossenses 2:9 diz que em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da divindade, e essa é a chave que impede a leitura mística e vaga de Efésios 3:19. A plenitude que deve encher você não é uma energia difusa, é a plenitude que tem rosto, nome e cicatrizes. O caminho vai de Cristo para a igreja, nunca ao contrário. Isso protege contra dois erros gêmeos: a espiritualidade que busca experiências sem Jesus, e o ativismo que serve a Jesus sem receber nada dele. Paulo já havia dito no versículo 12 que "temos ousadia e accesso com confiança, pela fé n'elle". O acesso é dado, não conquistado. A plenitude vem pela mesma porta.
O Perfil
Os primeiros leitores eram, na maioria, gentios recém-chegados. Gente que até pouco tempo antes estava fora do pacto, sem direito de entrar no pátio do templo em Jerusalém, e que Paulo agora chama de "coherdeiros, e de um mesmo corpo". Quando ouviam falar de ser "cheios", pensavam em algo bem físico: as estátuas dos templos que se acreditava serem preenchidas pela presença do deus, a taça cheia no banquete. Paulo pega essa linguagem familiar e a redireciona. Não a estátua, não o santuário de mármore, mas vocês. Escravos, tecelãs, marinheiros. Para quem tinha sido informado a vida inteira de que estava do lado de fora, essa frase não era poesia devocional. Era a demolição de um muro.
Reflexão
Onde na sua semana você tem servido a partir da escassez, tentando derramar sem ter sido enchido, e o que mudaria se você admitisse isso em voz alta diante de Deus?
Se o amor de Cristo tem largura, comprimento, altura e profundidade suficientes para alcançar a pessoa que você excluiu do seu, o que isso exige de você concretamente esta semana?
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Perguntas frequentes sobre Ephesians 3:19
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O que a comunidade compartilha sobre Ephesians 3
Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Repare no tempo do verbo: "temos". Não é teremos, quando melhorarmos. Agora mesmo, "no qual temos ousadia e acesso com confiança, pela nossa fé nele". O lugar diante de Deus que você tenta merecer já está aberto. A porta não está trancada, e ainda assim você fica parado do lado de fora, esperando permissão.
Pai, eu não cheguei aqui por mérito meu. Foi a tua graça que me alcançou e me colocou a serviço, e é a tua força que me sustenta quando a minha acaba. Que eu nunca esqueça de onde veio tudo isso, e que eu sirva com gratidão, não com orgulho.
Paulo estava acorrentado em Roma, mas não se chamou prisioneiro de César. "Por esta causa, eu, Paulo, o prisioneiro de Cristo Jesus, por amor de vós, gentios." Ele enxergou uma mão maior segurando a sua vida. E você, o que tem chamado de prisão? Talvez Cristo esteja ali, guardando você para algo que ainda não vê.
Pai, é impressionante pensar que escolheste mostrar tua sabedoria através de gente comum como nós, reunida e imperfeita. Ajuda-nos a viver de um jeito que revele quem tu és, mesmo quando nos sentimos pequenos e sem nada de especial para oferecer.
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