Jó 41
O Texto
Deus continua falando do meio da tempestade, e o assunto agora é um monstro. "Poderás tirar com anzol o leviathan?" Segue-se um retrato demorado: escamas seladas umas às outras que nem o ar atravessa, faíscas saindo da boca, fumaça pelas narinas, um coração "firme como uma pedra e firme como parte da mó de baixo". Nenhuma arma o fere, nenhum caçador o domestica, e o capítulo termina com uma coroação estranha: "Todo o alto vê: é rei sobre todos os filhos d'animaes altivos."
O Cerne
Jó pediu um tribunal. Queria intimar Deus, apresentar sua causa, ouvir a acusação formal. Deus responde com um bestiário. E no meio da descrição do monstro cai a frase que muda tudo: "Quem me preveniu, para que eu haja de retribuir-lhe? pois o que está debaixo de todos os céus é meu." A lógica é implacável e curiosamente consoladora: se você não consegue nem colocar um anzol na boca do leviatã, com que autoridade abriria um processo contra quem o fez? Mas repare que Deus não descreve o monstro com desprezo. Fala da "graça da sua formação". O caos não é um erro que escapou do controle; é criatura, tem beleza, tem dono.
O Fio Condutor
A Bíblia começa e termina com água agitada. Em Gênesis o Espírito paira sobre o abismo; em Apocalipse, o mar já não existe. Entre os dois, o mar é o lugar de onde sobe aquilo que os homens não conseguem domar. Jó 41 não resolve essa tensão, apenas mostra quem manda. O leviatã "foi feito para estar sem pavor", isto é, foi criado para não temer nada, e ainda assim é obra de outro. Quando Jesus se levanta no barco e o vento cala, os discípulos fazem exatamente a pergunta deste capítulo, só que ao contrário: quem é este, que até o mar obedece? A resposta de Jó 41 já estava dada. Só faltava o rosto.
O Espelho
Existe na sua vida algo que você tentou pescar com anzol e não conseguiu. O casamento que você quis consertar com mais uma conversa. O filho cuja escolha você não controla. A doença que voltou. A dívida, o chefe, o corpo que envelhece. Nós somos peritos em transformar monstros em bichinhos de estimação: mais uma técnica, mais um livro, mais um plano de cinco pontos. O versículo 8 é brutal e honesto: "Põe a tua mão sobre elle, lembra-te da peleja, e nunca mais tal intentarás." Há lutas que você vai perder. O texto não promete que você vencerá o leviatã. Promete que ele tem dono, e que o dono não é ele.
O Intertexto
Três ecos valem a pena. O Salmo 104 fala do mesmo bicho num tom completamente diferente: ali o leviatã é aquele que Deus formou para brincar no mar. O que aterroriza Jó é brinquedo do Criador. Isaías 27 vai adiante e anuncia o dia em que o Senhor castigará com sua espada dura "o leviatã, serpente veloz", ou seja, o monstro não é eterno; tem prazo. E Paulo, em Romanos 11, cita literalmente o versículo 11 deste capítulo para encerrar o argumento mais denso de toda a sua carta: ninguém deu primeiro a Deus para que ele tenha de retribuir. O que em Jó é um esmagamento, em Paulo vira doxologia. A mesma frase que cala a boca do sofredor abre a boca do adorador.
O Personagem Principal
Quem fala aqui não se defende. Deus não explica o sofrimento de Jó, não menciona o acusador do capítulo 1, não pede desculpas. Em vez disso, gaba-se de um animal que ninguém pediu e que não serve para nada de útil. Há ironia no tom, quase provocação: você o amarraria para as suas meninas brincarem? Seus sócios o venderiam no mercado? É o Deus que responde à dor com grandeza, não com argumentos. Isso irrita, e deve irritar. Mas note o efeito: Jó não sai humilhado, sai visto. Alguém que domina o leviatã e ainda assim vem falar pessoalmente com um homem sentado nas cinzas não é distante. É livre, e escolheu se aproximar.
Contexto
Jó pertence à literatura de sabedoria, e este capítulo faz parte do segundo discurso de Deus, logo depois do beemote. Para os primeiros ouvintes, leviatã não era simplesmente um crocodilo do Nilo, embora a descrição das escamas e das mandíbulas lembre um. Nas histórias cananeias que circulavam pela região, o monstro marinho era o inimigo primordial dos deuses, o caos que precisava ser derrotado para o mundo existir. Israel conhecia essas histórias e fez com elas algo escandaloso: transformou o deus-inimigo em criatura de Deus, um item no inventário divino. Jó vivia num mundo onde sofrimento significava culpa, e seus amigos aplicaram essa contabilidade com precisão cruel. Deus não corrige a teologia deles com uma doutrina melhor. Corrige com um monstro.
Qual é o leviatã que você ainda insiste em pescar com anzol, e o que mudaria se você aceitasse que ele não é seu para domar?
A resposta de Deus a Jó não explica nada e mesmo assim basta. Você consegue dizer honestamente por que, ou ainda quer o tribunal?
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Obrigado, Senhor, porque, mesmo diante do Leviatã, cuja força habita no pescoço e diante dele salta o desespero, o meu coração pode descansar em Ti. Tu és maior que aquilo que me apavora, e em Tuas mãos o medo perde o trono.
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