Josué 24:15
O Texto
Depois de recontar toda a história de Israel como se fosse um só fôlego de Deus ("Eu tomei… Eu enviei… Eu vos dei"), Josué chega ao ponto em que a narrativa exige resposta. Ele coloca diante do povo reunido em Siquém uma alternativa sem meio-termo: ou o Senhor, ou os deuses antigos de Terá do outro lado do Eufrates, ou os deuses dos amorreus cuja terra agora pisam. "Escolhei-vos hoje a quem sirvaes." E antes que alguém responda, o velho general já declarou o seu lado: "porém eu e a minha casa serviremos ao Senhor." Não é uma pergunta retórica nem uma chantagem religiosa; é a cláusula final de um tratado, pronunciada diante de testemunhas, num lugar carregado de memória.
O Cerne
Repare na ordem das coisas, porque ela sustenta tudo. A escolha só aparece no versículo quinze, depois de treze versículos de graça narrada. Deus não começa dizendo "escolham-me"; começa dizendo o que fez quando ninguém o escolhia, quando os pais de Israel ainda serviam a outros deuses do outro lado do rio. A obediência aqui não compra nada: é resposta a vinhas que não plantaram e cidades que não edificaram. E, no entanto, a escolha é real, não decorativa. O Deus que agiu soberanamente na história recusa-se a agir coercivamente no coração. Ele expõe as alternativas com honestidade brutal, inclusive os deuses dos amorreus, e espera. A graça precede, mas não dispensa a decisão. Essa tensão é o nervo de toda a fé bíblica.
O Fio Condutor
Siquém não foi escolhida por acaso. Era ali, naquele vale apertado entre o Ebal e o Gerizim, que Abraão parara ao entrar em Canaã, e ali que Jacó, séculos antes daquele dia, enterrara os deuses estranhos da sua família debaixo de um carvalho. Josué convoca o povo para o mesmo chão e, em vez de inventar uma religião nova, reabre uma conversa antiga: o Deus que chamou um homem "d'além do rio" continua a chamar, geração após geração, sempre com a mesma estrutura, primeiro a graça, depois a resposta. E repare no nome do homem que fala: Josué, Yeshua, o Senhor salva. Séculos mais tarde, outro com esse nome convocaria pessoas em Israel, colocaria diante delas uma alternativa sem meio-termo e não pediria que escolhessem antes de ele próprio ter escolhido morrer por elas.
O Espelho
Os deuses dos amorreus não eram abstrações filosóficas; eram quem mandava na chuva. Uma família que acabava de herdar vinhas que não plantou olhava para o céu de agosto e sabia que os vizinhos tinham rituais testados há gerações para aquele solo. Servir só ao Senhor era um risco agrícola. É exactamente aí que a sua vida toca a deles. Você não tem terafins na mala, mas tem seguros emocionais: o emprego que não pode falhar, a aprovação do seu pai, o número na conta que o faz dormir. São deuses locais, especializados na sua insegurança específica. E "eu e a minha casa" significa que a sua escolha nunca é apenas sua: os seus filhos vêem onde você vai buscar segurança quando o mês aperta. Hoje, antes de dormir: escreva num papel o nome concreto do seu deus amorreu, aquele a que recorre quando tem medo, e diga em voz alta, sozinho ou à mesa, as últimas palavras do versículo quinze.
O Intertexto
Jesus formula a mesma alternativa em Mateus 6, ao dizer que ninguém consegue servir a dois senhores, e nomeia o concorrente com o mesmo realismo económico de Josué: não um ídolo exótico, mas o dinheiro, o deus do solo em que vivemos. Mais revelador ainda é o que acontece logo a seguir neste capítulo. O povo responde com entusiasmo, "Nunca nos aconteça que deixemos ao Senhor", e Josué recusa o aplauso: "Não podereis servir ao Senhor, porquanto é Deus sancto, é Deus zeloso." Ele não quer uma onda de emoção colectiva; quer testemunhas conscientes do que estão a assinar. Poucos líderes religiosos tentam esfriar uma decisão que acabaram de provocar.
O Detalhe
"Se vos parece mal aos vossos olhos servir ao Senhor." A expressão hebraica, ra' be'eynekhem, significa literalmente "se é mau aos vossos olhos", e Josué diz isto sem ironia defensiva. Ele admite, diante de todo o Israel, que servir o Senhor pode genuinamente parecer má ideia a alguém. Não há aqui manipulação espiritual, nem a sugestão de que apenas pessoas estúpidas ou perversas escolheriam outra coisa. O texto concede que os outros deuses têm argumentos: são os deuses dos pais, os deuses da terra, os deuses que toda a gente em volta serve com resultados visíveis. Josué expõe a alternativa pelo seu lado mais atraente e só depois se posiciona. É uma honestidade que falta a muita pregação nossa.
A Pergunta
Se a escolha é real, por que motivo Josué diz quatro versículos depois que eles não conseguirão servir ao Senhor? Ou a decisão é possível, ou não é. O texto não resolve. Deixa-nos com um homem que exige uma escolha e, no mesmo fôlego, avisa que ela excede a capacidade humana, e com um povo que promete em voz alta e que, a julgar pelo livro seguinte, quebrará tudo em menos de duas gerações. Talvez seja essa precisamente a lição que Siquém guarda: decidir é necessário e insuficiente. A pedra erguida debaixo do carvalho não foi colocada para celebrar a lealdade do povo, mas para testemunhar contra ele quando falhasse. A promessa só se cumpre quando alguém, finalmente, serve ao Senhor em lugar deles.
Reflexão
Qual é o deus da sua terra, aquele que todos à sua volta servem sem o nomear, e que lhe parece simplesmente razoável?
Quem, na sua casa, está a aprender com os seus gestos onde se procura segurança quando as coisas correm mal?
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Senhor, ajuda-me a não esquecer o que já fizeste por mim. Quando a memória enfraquece, a fé esfria. Guarda viva em mim a lembrança da tua bondade e dá-me coragem de contá-la aos que vêm depois, para que também te sirvam.
Senhor, quero te servir de coração inteiro, sem guardar em segredo aquilo que rouba meu lugar contigo. Ajuda-me a soltar os pequenos ídolos que carrego por herança ou por hábito, e a caminhar contigo com sinceridade e confiança.
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