Romanos 16:23
O Texto
Três nomes, uma linha e meia de tinta. Gaio manda lembranças: é o homem em cuja casa Paulo está hospedado enquanto dita esta carta monumental, e cuja porta está aberta não só ao apóstolo mas "de toda a egreja". Erasto manda lembranças: o tesoureiro da cidade, funcionário público de Corinto, homem de contas e de contratos. E depois, sem título, sem função, sem elogio, "o irmão Quarto". Alguém de quem não sabemos absolutamente nada, exceto que era irmão e que quis dizer olá a pessoas que talvez nunca tivesse visto. Paulo termina a carta mais densa do Novo Testamento com um anfitrião, um burocrata e um desconhecido.
O Cerne
O evangelho que Paulo acabou de expor em dezasseis capítulos, justificação, graça, eleição, o mistério de Israel, não termina numa conclusão abstrata mas numa lista de gente com nome próprio. Isto não é apêndice; é demonstração. Se a graça é real, ela produz uma casa que se abre, um cargo público habitado por um crente, e um irmão sem currículo que ainda assim pertence. Repare na ordem social invertida: o texto não hierarquiza. O procurador da cidade e Quarto recebem exatamente o mesmo espaço na frase. Diante de Deus, a função de Erasto não lhe dá peso extra, e a ausência de função em Quarto não lhe tira nada. A comunidade que o evangelho cria é o lugar onde o currículo deixa de ser critério de valor, e isso é teologia, não sentimentalismo.
O Fio Condutor
Há uma linha que atravessa toda a Escritura e que passa exatamente por aqui: Deus escolhe gente sem estatuto e dá-lhe nome. Israel nasce de um casal estéril, o rei vem do último filho de Jessé, o Messias cresce numa aldeia sem importância. E quando esse Messias morre e ressuscita, o resultado visível no império não é um templo mas uma casa emprestada em Corinto onde um homem alimenta estranhos. O mesmo Paulo que dois versículos antes escreve que "o Deus de paz esmagará logo a Satanaz debaixo dos vossos pés" mostra aqui como é que essa vitória cósmica aterra: numa mesa posta, num funcionário honesto, num irmão que só tem o nome. A guerra dos séculos termina em hospitalidade concreta.
O Espelho
Pergunte a si mesmo, com honestidade, em qual dos três se reconhece e em qual gostaria de se reconhecer. Porque quase todos nós queremos ser Erasto: alguém cuja presença na igreja acrescenta algo, cujo cargo, competência ou reputação dão peso ao grupo. Reparamos em quem tem função. Convidamos para casa quem pode retribuir o convite. E temos um medo silencioso de ser Quarto, o irmão de quem nada se diz, aquele que se ausenta três domingos e ninguém pergunta porquê. Esse medo aparece em coisas pequenas: na necessidade de mencionar o que fazemos logo nos primeiros minutos de conversa, na irritação quando o nosso trabalho na igreja não é referido em público, no cansaço de servir sem que ninguém veja. Paulo escreve o nome de Quarto e não escreve mais nada, e isso basta. Basta mesmo. Hoje, escreva uma mensagem de saudação a uma pessoa da sua igreja cujo nome conhece mas de quem não sabe nada mais, e não peça nada nem proponha nada: apenas diga que se lembrou dela.
A Personagem Principal
Gaio é chamado "meu hospedeiro, e de toda a egreja", e essa segunda metade custa mais do que parece. Não se trata de receber Paulo por umas semanas; trata-se de ter a casa transformada em espaço público cristão, com escravos e artesãos e comerciantes a entrar pela mesma porta, num tempo em que a casa era o símbolo mais forte da honra de um homem. Gaio abriu a sua honra ao ridículo. É um perfil espiritual reconhecível: gente que não prega, não escreve, não lidera, mas cuja disponibilidade material sustenta tudo o resto. Sem a casa de Gaio, provavelmente não haveria carta aos Romanos. A epístola mais influente da história cristã foi escrita à mesa de alguém.
O Detalhe
A palavra grega por trás de "hospedeiro" é xenos, que significa simultaneamente estrangeiro e anfitrião. A mesma palavra para quem chega de fora e para quem o acolhe. A língua guardou aqui uma intuição que o evangelho leva ao fim: só acolhe bem quem sabe que também é forasteiro. Gaio não recebe Paulo de cima, como patrono generoso a distribuir favores; recebe-o como alguém que compreendeu que a própria casa lhe foi emprestada. É por isso que a hospitalidade cristã não é simpatia. É uma confissão de fé sobre a nossa condição diante de Deus, feita com chaves, comida e um quarto arrumado.
O Perfil
Os que ouviram esta carta em Roma não estavam sentados numa nave de igreja mas espremidos em salas de habitação alugada, muitos deles escravos ou libertos, alguns judeus recém-regressados do exílio decretado por Cláudio. Para eles, a palavra "procurador da cidade" tinha um peso quase chocante: um homem com acesso ao dinheiro público da rica Corinto pertencia à mesma família que um escravo da casa de Narciso, mencionado uns versículos antes. E ouvir o nome de Quarto, sem qualquer adjetivo, dizia-lhes aquilo que precisavam de ouvir sobre si próprios: nesta carta cabe gente sem descrição. Numa sociedade organizada inteiramente por honra e clientelismo, isto não era um detalhe simpático. Era subversivo.
Reflexão
Quando é que, nos últimos meses, a sua casa foi usada por alguém que não podia retribuir o convite, e o que é que a resposta lhe revela?
Se Paulo escrevesse hoje a sua comunidade, quem seriam os "Quartos" que ele mencionaria e que você não conseguiria identificar?
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Perguntas frequentes sobre Romans 16:23
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O que a comunidade compartilha sobre Romans 16
Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Paulo escreve a carta mais densa da Bíblia, cheia de pecado, justiça, eleição, sofrimento, e termina assim: "A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja com todos vós." Nenhuma exigência final, nenhuma cobrança. Só graça. Se ele começou e terminou por aí, talvez seja hora de você parar de tentar merecer o que já lhe foi dado.
Priscila e Áquila "pela minha vida expuseram a própria cabeça". Paulo não conta o episódio, não dá detalhes, não diz onde nem quando. Só a gratidão ficou. Há pessoas que arriscaram algo por você e nunca fizeram disso uma história. Você ainda lembra o nome delas? E já agradeceu em voz alta?
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