Romanos 5:1
O Texto
Paulo acaba de passar quatro capítulos demonstrando que ninguém, nem judeu nem grego, consegue apresentar-se diante de Deus com as mãos limpas, e agora vira a página com um "sendo pois". Justificados pela fé, diz ele: declarados justos, absolvidos no tribunal, não por currículo religioso mas por confiança. E o resultado não é um sentimento morno nem uma promessa para depois da morte, mas um estado presente: "temos paz com Deus". Uma guerra terminou. O intermediário do armistício tem nome e história, "por nosso Senhor Jesus Christo", e é através dele que essa paz chega até quem lê a carta em Roma, sentado no chão de uma sala emprestada, ouvindo em voz alta as palavras de um prisioneiro em potencial.
O Cerne
Para quem ouvia essa carta na capital do império, a palavra "paz" não era neutra. Era propaganda oficial. A pax Romana estava gravada em moedas, esculpida em altares, celebrada em desfiles onde generais arrastavam cativos acorrentados pela Via Sacra. Todos sabiam como se fabricava aquela paz: com legiões, crucificações à beira das estradas, tributos. Paulo pega essa palavra carregada e a desloca. A paz que importa não é a que César impõe entre povos, mas a que Deus estabelece com rebeldes que ele mesmo tinha razão de julgar. E o mais escandaloso é o custo invertido: aqui não é o vencido que paga, é o vencedor que sangra. Deus não assina um cessar-fogo; ele reconcilia inimigos, como Paulo dirá dez versículos adiante, pela morte do próprio Filho.
O Fio Condutor
A paz que Paulo anuncia tem raízes muito mais antigas que Roma. O shalom hebraico nunca significou apenas ausência de conflito; significava integridade, coisas de novo inteiras, a criação funcionando como foi pensada. Desde o portão do Éden guardado por querubins, a história bíblica é a de um acesso interrompido. Israel viveu isso liturgicamente: o sangue no altar, o véu, o sacerdote que entrava uma vez ao ano e saía vivo por pouco. Tudo aquilo dizia ao mesmo tempo "Deus quer estar convosco" e "ainda não podeis chegar perto". Paulo escreve do outro lado dessa história. O versículo seguinte usa a palavra exata do problema resolvido: "temos entrada". O guarda saiu do portão. Não porque a exigência caiu, mas porque foi satisfeita em outro lugar, numa cruz fora dos muros.
O Espelho
O que essa palavra desmonta em você é a suspeita persistente de que Deus está de mau humor com você. Ela aparece nos momentos mais banais: quando o diagnóstico chega e a primeira pergunta é "o que eu fiz"; quando você falha de novo no mesmo ponto e adia a oração por três dias, como quem espera o chefe esfriar antes de bater na porta; quando você trabalha até tarde e não sabe dizer se é responsabilidade ou tentativa de compensar algo diante de Deus. Paulo não diz "teremos paz se melhorarmos". Diz "temos". Presente, já assinado, fora do alcance do seu desempenho de hoje. Faça isto agora: escreva num papel a falha que mais o envergonha nesta semana, e ao lado dela escreva as três palavras "temos paz com Deus". Depois rasgue o papel.
A Pergunta
Se a guerra acabou, por que a vida ainda parece campo de batalha? Paulo não é ingênuo, e é significativo que dois versículos adiante ele fale em glorificar-se "nas tribulações". A paz que ele anuncia é objetiva, uma mudança na relação, não na temperatura das circunstâncias nem sempre no estado dos nossos nervos. O crente reconciliado ainda enterra os pais, ainda perde o emprego, ainda acorda às três da manhã com o peito apertado. Em Roma, alguns dos que ouviram esta carta morreram poucos anos depois em jardins imperiais, servindo de tochas. Tinham paz com Deus e nenhuma paz com César. O texto não promete que a experiência confirmará imediatamente a realidade. Pede que você creia na realidade quando a experiência a contradiz.
O Personagem Principal
O personagem aqui é Deus, e o que impressiona é quem tomou a iniciativa. Nas guerras antigas, quem pedia a paz era o mais fraco: enviava embaixadores, oferecia reféns, aceitava condições humilhantes. A parte ofendida esperava ser procurada. Paulo inverte tudo. O ofendido é Deus, o poder está inteiramente do lado dele, e mesmo assim é ele quem envia o embaixador, e o embaixador é o Filho. O versículo 8 dirá isso sem rodeios: Cristo morreu por nós "sendo nós ainda peccadores". Não depois do arrependimento, não mediante garantias. Este é um Deus cuja justiça é real, cuja ira contra o mal não é encenação, e que ainda assim se recusa a resolver o problema eliminando o inimigo. Resolve-o absorvendo o custo.
O Detalhe
Repare no plural: "temos paz". Não "tenho". Paulo escreve para uma comunidade que provavelmente se reunia em várias casas espalhadas por Roma, judeus voltando do exílio decretado por Cláudio e gentios que haviam assumido a liderança na ausência deles, com todas as tensões previsíveis sobre comida, calendário e quem manda. Justificação pela fé não é um alívio privado para consciências individuais; é o chão comum de pessoas que socialmente não teriam por que estar na mesma sala. O escravo e o dono de casa dizem a mesma frase, com o mesmo direito, no mesmo tempo verbal. Se a paz com Deus é recebida igualmente por todos, ela reorganiza silenciosamente todas as hierarquias que aquelas pessoas trouxeram da rua para dentro de casa.
Reflexão
Onde, concretamente, você ainda vive como se precisasse negociar sua posição diante de Deus, e o que mudaria na sua semana se essa negociação estivesse encerrada?
Quem está na sua igreja com quem você, fora do evangelho, não teria motivo social para conviver, e como o "temos" plural deste versículo o convoca em relação a essa pessoa?
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O que a comunidade compartilha sobre Romans 5
Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Pai, sinto o peso dessa sombra que se arrasta desde o começo, a morte que insiste em reinar. Mas tu preparaste outro caminho, e nele há vida. Ensina meu coração a olhar para aquele que veio quebrar esse ciclo e confiar nele hoje.
Obrigado, Senhor, porque o pecado já não reina em mim pela morte: agora a graça reina pela justiça para a vida eterna, mediante Jesus Cristo, nosso Senhor. Grato por cada manhã em que Tua graça me levanta de novo, mais forte que a minha culpa.
Pai, eu era teu inimigo e mesmo assim vieste ao meu encontro. Se me recebeste quando eu estava longe, confio que não me deixarás agora. Que a vida do teu Filho me sustente hoje, no que temo e no que ainda não entendo.
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