João, o Baptista: "Eu não sou o Christo"
Quem é João
João, chamado João Baptista, é um profeta, filho de Zechariah e Elizabeth (Luke 1:13). A cronologia de que dispomos diz que foi "ativo de d.C. 29 a d.C. 100", segundo Ussher, Annals of the World (1650). A sua pegada é larga para alguém que nunca escreveu um livro: 89 versículos em 32 passagens, distribuídos por cinco livros, sendo a primeira menção em Matthew 3:1 e a última em Acts. Matthew e Luke falam dele 23 vezes cada, John 19 vezes, Mark 15 e Acts 9. Depois das cenas narradas, o seu nome continua a aparecer em discursos e conversas registados em Acts 1:5; Acts 1:22; Acts 10:37; Acts 11:16; Acts 18:25 e Acts 19:3-4, sinal de que a sua figura permaneceu como referência entre os primeiros crentes.
As águas de Enon, junto a Salim
A cena mais longa que temos dele situa-se junto à água: "Ora João baptizava tambem em Enon, junto a Salim, porquanto havia ali muitas aguas; e vinham ali, e eram baptizados" (John 3:23). O narrador acrescenta uma nota que pesa sobre tudo o que se segue: "Porque ainda João não tinha sido lançado na prisão" (John 3:24). Surge então uma disputa entre os seus discípulos e os judeos "ácerca da purificação" (John 3:25), e os discípulos levam-lhe uma queixa que é, no fundo, uma queixa de concorrência: "Rabbi, aquelle que estava comtigo além do Jordão, do qual tu déste testemunho, eis que baptiza, e todos vão ter com elle" (John 3:26).
A resposta de João não defende território: "O homem não pode receber coisa alguma, se lhe não fôr dada do céu" (John 3:27). É a frase de um homem que se mede por aquilo que lhe foi confiado, e não por aquilo que lhe parece ser tirado. O mesmo movimento de recusa aparece em Acts 13:24-25, onde se recorda que João, antes da vinda d'elle, tinha "prégado a todo o povo d'Israel o baptismo do arrependimento", e que, ao cumprir a sua carreira, disse: "Quem pensaes vós que eu sou? Eu não sou o Christo; mas eis que após mim vem aquelle a quem não sou digno de desatar as alparcas dos pés."
A pergunta que ele mandou fazer
Há um momento em que João precisa de saber. Os seus discípulos anunciam-lhe "todas estas coisas", e ele reage assim: "E João, chamando dois dos seus discipulos, enviou-os a Jesus, dizendo: És tu aquelle que havia de vir, ou esperamos outro?" (Luke 7:18-19). Os enviados repetem a pergunta palavra por palavra, identificando quem os manda: "João Baptista enviou-nos a dizer-te: És tu aquelle que havia de vir, ou esperamos outro?" (Luke 7:20). A resposta de Jesus consta do que se segue (Luke 7:22), que aqui não se cita.
Vale a pena não amaciar esta cena. O mesmo homem que declarou não ser digno de desatar as alparcas de outro manda perguntar se esse outro é realmente aquele que havia de vir. O relato não explica o que o levou a perguntar, nem o repreende por isso.
Preso e degolado por uma palavra dita a Herodes
O desfecho está contado duas vezes, quase com as mesmas palavras. Herodes ouve falar do que se faz e conclui: "Este é João, que mandei degolar, resuscitou dos mortos" (Mark 6:16); em Matthew 14:2 diz aos seus creados: "Este é João Baptista; resuscitou dos mortos, e por isso as maravilhas obram n'elle." O motivo da prisão é declarado sem rodeios: Herodes "mandára prender a João, e encerral-o manietado no carcere, por causa de Herodias, mulher de Philippe, seu irmão, porquanto tinha casado com ella" (Mark 6:17). E a razão por detrás da razão: "Porque dizia João a Herodes: Não te é licito possuir a mulher de teu irmão" (Mark 6:18); em Matthew 14:4, "Porque João lhe dissera: Não te é licito possuil-a." A cadeia e a espada vieram de uma frase curta sobre um casamento. O pedido feito diante de Herodes é ainda referido em Mark 6:24-25 e Matthew 14:8, e a execução em Matthew 14:10, sem que aqui se acrescente nada ao que ali está.
O que não sabemos
As passagens que temos não atribuem a João nenhum pecado nomeado. A única sombra é a pergunta enviada a Jesus (Luke 7:18-20), e o texto deixa-a em aberto, sem veredicto. Não lhe são nomeados filhos. Não sabemos, a partir deste material, o que se passou entre a prisão e a morte, nem o que ele pensou no fim. Onde o texto cala, calamos.
A linha até o Christo
Jesus coloca João num lugar único: "Em verdade vos digo que, entre os que de mulheres teem nascido, não appareceu alguem maior do que João Baptista; mas aquelle que é o menor no reino dos céus é maior do que elle" (Matthew 11:11). E situa-o como fronteira: "Porque todos os prophetas e a lei prophetizaram até João" (Matthew 11:13), pois "desde os dias de João Baptista até agora, se faz violencia ao reino dos céus, e os violentos se apoderam d'elle" (Matthew 11:12). O seu testemunho é recordado ainda em John 1:6; John 1:15; John 1:19; John 1:26; John 1:28-29; John 1:32; John 1:35; John 1:40; John 5:33; John 5:36; John 10:40-41; Luke 3:15-16; Luke 7:28-29; Matthew 3:13-14 e Matthew 21:25-26.
A sua grandeza mede-se, então, por aquilo que ele recusou ser. "Eu não sou o Christo" (Acts 13:25) é a confissão que o define, e é a mesma confissão que aponta para aquele a quem ele não se julgava digno de desatar as alparcas dos pés.

