Paulo, o apóstolo que testificou em Jerusalem e em Roma
Um apóstolo, ativo de d.C. 34 a d.C. 67
Paulo é descrito de modo curto: um apóstolo. Quanto ao tempo em que viveu, a única indicação de datas que temos vem de Ussher, Annals of the World (1650), que o situa "ativo de d.C. 34 a d.C. 67". Sua presença no texto bíblico é larga: 182 versículos em 44 passagens, espalhados por quinze livros, dos quais 152 versículos estão em Acts. A primeira menção do seu nome está em Acts 7:58; a última, em 2 Peter. Entre esses dois extremos aparece um homem que é ao mesmo tempo personagem de uma narrativa e remetente de cartas, assinando pelo próprio punho (1 Corinthians 16:21; 2 Thessalonians 3:17; Philemon 1:19).
As cenas que o texto nos põe diante dos olhos
Em Acts 16:17-19 uma jovem escrava o segue com um clamor que, no fundo, dizia a verdade: "Estes homens, que nos annunciam o caminho da salvação, são servos do Deus Altissimo. E ella fazia isto por muitos dias." Paulo não se aproveita do anúncio. O texto diz: "Porém, descontentando isto a Paulo, voltou-se, e disse ao espirito: Em nome de Jesus Christo, te mando que saias d'ella. E na mesma hora saiu." A consequência é imediata e econômica: perdida "a esperança do seu lucro", os senhores da moça agarram Paulo e Silas e os levam à praça, diante dos magistrados.
Em Acts 17:13-16 a oposição o persegue de cidade em cidade. Os judeos de Thessalonica souberam que a palavra de Deus também era anunciada por Paulo em Berea, foram até lá e comoveram as multidões. Os irmãos o mandam sair como para o mar, enquanto Silas e Timotheo ficam ali. Levado até Athenas, ele espera os companheiros, e o texto guarda um detalhe interior raro: "o seu espirito se commovia em si mesmo, vendo a cidade tão dada á idolatria."
Em Acts 23:10-12 a violência chega ao ponto em que o tribuno teme que Paulo seja despedaçado e manda a soldadesca arrebatá-lo para a fortaleza. Naquela noite o Senhor se apresenta a ele: "Paulo, tem animo: porque, como de mim testificaste em Jerusalem, assim te importa testificar tambem em Roma." Logo no versículo seguinte, alguns fazem uma conspiração e se conjuram a não comer nem beber enquanto não o matassem. A promessa e a cilada estão lado a lado na mesma página.
A cilada é desfeita por um parente: "o filho da irmã de Paulo", ouvindo as ciladas, entra na fortaleza e o avisa (Acts 23:16-18). Paulo chama a si um dos centuriões e faz o rapaz ser levado ao tribuno, que ouve dele a palavra "o preso Paulo". É o único familiar que estas passagens mostram, e ainda assim sem nome próprio.
Em Acts 25:6-10 ele está diante do tribunal em Cesarea. Os judeos que haviam descido de Jerusalem o rodeiam "trazendo contra Paulo muitas e graves accusações, que não podiam provar". A defesa é curta: "Eu não pequei em coisa alguma contra a lei dos judeos, nem contra o templo, nem contra Cesar." Quando Festo, "querendo comprazer com os judeos", propõe levar o julgamento a Jerusalem, Paulo responde: "Estou perante o tribunal de Cesar, onde convem que seja julgado."
E em Acts 28:15-17 a palavra dada na fortaleza se cumpre. Irmãos saem ao encontro dele à praça d'Appio e às três Vendas, "e Paulo, vendo-os, deu graças a Deus, e tomou animo". Em Roma lhe permitem morar sobre si à parte, com o soldado que o guardava, e três dias depois ele convoca os principais dos judeos e resume tudo: "não havendo eu feito nada contra o povo, ou contra os ritos paternos, vim todavia preso desde Jerusalem, entregue nas mãos dos romanos."
Menções que não são cenas
Boa parte do seu registro não é narrativa, e é honesto dizê-lo. Nas cartas, o nome aparece sobretudo em saudações iniciais e despedidas (Romans 1:1; 1 Corinthians 1:1; 2 Corinthians 1:1; Galatians 1:1; Ephesians 1:1; Philippians 1:1; Colossians 1:1; 1 Thessalonians 1:1; 2 Thessalonians 1:1; 1 Timothy 1:1; 2 Timothy 1:1; Titus 1:1; Philemon 1:1; 2 Timothy 4:22; Colossians 4:18). Outras são menções feitas por terceiros, inclusive por gente que usava o seu nome como bandeira de partido (1 Corinthians 1:12-13; 1 Corinthians 3:4-5; 1 Corinthians 3:22), e por outro autor que fala dele em 2 Peter 3:15.
As falhas que o texto mostra
O dossiê não traz o texto das primeiras menções do seu nome (Acts 7:58; Acts 8:1; Acts 8:3; Acts 9:1), e não vou contar o que não está aqui diante dos meus olhos. Nas passagens citadas por extenso, a sombra que aparece é pequena e sincera: a expulsão do espírito em Acts 16:18 nasce de um homem contrariado, "descontentando isto a Paulo". E há a insistência na própria inocência diante de Festo (Acts 25:8) e diante dos judeos em Roma (Acts 28:17), palavras de um acusado, não de um homem impecável.
O que não sabemos
Seus pais não são nomeados. Nenhum filho é mencionado. Nenhuma tribo ou povo lhe é atribuído. Da sua irmã sabemos apenas que teve um filho, e é por esse rapaz que ela entra no relato (Acts 23:16).
A linha até Jesus Christo
Ela é traçada pelas próprias passagens citadas. O que Paulo anuncia é chamado "o caminho da salvação", e a autoridade com que ele fala não é sua: "Em nome de Jesus Christo, te mando que saias d'ella" (Acts 16:18). O Senhor o encontra de noite, na fortaleza, e liga o passado ao futuro numa só frase: "como de mim testificaste em Jerusalem, assim te importa testificar tambem em Roma" (Acts 23:11). O resto do livro é o cumprimento dessa frase, e termina com um preso que mora à parte em Roma, guardado por um soldado, dando graças a Deus e tomando ânimo ao ver os irmãos (Acts 28:15-16). Outro autor o chama irmão amado ao tratar da salvação (2 Peter 3:15). O homem estava preso; a palavra que ele carregava chegou onde lhe fora dito que chegaria.
