Quem Foi o Apóstolo Paulo: Vida, Conversão e Cartas
Introdução
Imagine um homem de trinta e poucos anos, currículo impecável, subindo a estrada de Jerusalém a Damasco com cartas oficiais no bolso. Ele tem autorização para prender pessoas. Ele acredita, com toda sinceridade, que está prestando serviço a Deus. E ele está profundamente enganado.
Seis dias de viagem depois, esse mesmo homem entra em Damasco cego, conduzido pela mão, sem os documentos que importavam e sem a certeza que o sustentava. Nada no seu histórico religioso o preparou para aquilo. Tudo o que ele havia acumulado como crédito virou, de repente, uma dívida.
Paulo de Tarso é provavelmente a segunda figura mais influente do Novo Testamento, e a mais mal compreendida. Nas próximas páginas você vai acompanhar a vida dele em ordem: o fariseu, o perseguidor, o convertido, o missionário, o prisioneiro, o mártir. E vai descobrir por que o próprio Paulo resumiu sua biografia inteira com uma linguagem de contabilidade.
A perspectiva deste guia
Este guia lê a vida de Paulo pelo livro-caixa dele. Paulo foi treinado para contar: gerações, mandamentos, méritos, zelo. Filipenses 3:7 é a chave de tudo, porque ali ele confessa que refez a soma inteira. O que estava na coluna do lucro passou para a coluna da perda, e o único ativo que sobrou foi Cristo. Escolhemos esse ângulo porque quase todo resumo sobre Paulo lista feitos e viagens, quando o próprio apóstolo insistia que sua história só fazia sentido como uma falência assumida e uma riqueza recebida. Acompanhar essa contabilidade nos protege de admirar o herói e perder a graça.
O que a Bíblia diz sobre o apóstolo Paulo?
Ele nasceu como Saulo, em Tarso da Cilícia, cidade universitária e cosmopolita da atual Turquia, provavelmente na primeira década do século I. Herdou três mundos ao mesmo tempo: era judeu de nascimento, da tribo de Benjamim; cidadão romano por direito de família, privilégio raro que mais tarde salvaria sua pele; e falante fluente do grego comum, a língua do Império. Em Atos 22:3 ele se apresenta assim: "Eu sou judeu, nasci em Tarso da Cilícia, mas fui criado nesta cidade e aos pés de Gamaliel, instruído rigorosamente na lei de nossos pais, sendo zeloso para com Deus, como todos vós hoje o sois." Gamaliel era o rabino mais respeitado de sua geração. Saulo não era um fanático de periferia; era o aluno brilhante do melhor professor.
Aprendeu também um ofício manual, o trabalho com couro e tecido de tendas, que depois usaria para não pesar no bolso das igrejas. O fariseu erudito tinha calos nas mãos.
Sua primeira aparição na Bíblia não é bonita. Ele está guardando as capas de quem apedrejava Estêvão e consentindo naquela morte, e em seguida se torna o rosto da perseguição contra a igreja de Jerusalém, entrando em casas e arrastando homens e mulheres para a prisão. Atos 9:1 o descreve respirando ainda ameaças e morte contra os discípulos do Senhor. É importante não amenizar isso. O maior missionário da história cristã começou como o mais eficiente inimigo do cristianismo.
Foi nesse trajeto que Deus o interceptou. Atos 9:3 registra o momento com uma sobriedade quase assustadora: "subitamente, uma luz do céu brilhou ao seu redor". Nenhum sermão, nenhum debate, nenhuma pressão social. Uma luz, uma queda, uma voz: "Saulo, Saulo, por que me persegues?" A pergunta é decisiva, porque Jesus não diz "por que persegues os meus", mas "por que me persegues". A igreja que Saulo atacava era o corpo do Cristo ressurreto.
Depois de Damasco vêm anos de silêncio que quase ninguém conta. Ele passa um tempo na Arábia, volta a Damasco, sobe a Jerusalém só três anos mais tarde e retorna para a região de Tarso, onde desaparece do relato por cerca de uma década. O apóstolo dos gentios ficou dez anos sem plataforma. Quem o resgatou desse anonimato foi Barnabé, que o buscou para ajudar na igreja multicultural de Antioquia (Atos 11:25 e 26).
E foi ali, num culto de jejum e oração, que a missão mundial começou. Atos 13:2 diz: "E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Separai-me, agora, Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado." Note quem toma a iniciativa. Não foi ambição pessoal nem estratégia de comitê; foi o Espírito Santo separando homens para uma obra que já existia no propósito de Deus.
Seguem-se três grandes viagens missionárias ao longo de uns quinze anos. Na primeira, com Barnabé, ele atravessa Chipre e o interior da Ásia Menor, é aclamado como um deus em Listra e apedrejado na mesma cidade poucos dias depois. Entre a primeira e a segunda viagem acontece o concílio de Jerusalém (Atos 15), onde se decide que os gentios não precisam se tornar judeus para pertencer a Cristo, a batalha teológica que Paulo travaria a vida inteira. Na segunda viagem, após uma separação dolorosa de Barnabé, ele entra na Europa: Filipos, Tessalônica, Atenas, Corinto. Na terceira, passa quase três anos em Éfeso, o coração religioso da Ásia, e escreve boa parte de suas cartas mais densas.
As cartas nascem sempre dentro dessa vida em movimento. Não são tratados escritos numa biblioteca tranquila, e sim correspondência pastoral urgente, ditada muitas vezes a um secretário, para igrejas reais com problemas reais. Gálatas defende que a justificação é pela fé, contra quem exigia circuncisão. Primeira e Segunda Tessalonicenses consolam jovens crentes ansiosos quanto à volta de Cristo. Primeira e Segunda Coríntios enfrentam divisões, imoralidade, processos judiciais entre irmãos e a confusão sobre dons espirituais. Romanos, escrita de Corinto para uma igreja que ele ainda não conhecia, é a exposição mais completa do evangelho no Novo Testamento, e seu tema é declarado na abertura: "Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego" (Romanos 1:16).
Depois vem a prisão. Preso em Jerusalém por volta do ano 57, dois anos detido em Cesareia, transferido a Roma como cidadão romano que apelou a César, naufragado em Malta, ele passa mais dois anos em prisão domiciliar na capital do Império. Dali saem Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemom, as chamadas cartas da prisão, curiosamente as mais alegres do conjunto. Por fim, as cartas pastorais, Primeira e Segunda Timóteo e Tito, escritas provavelmente após uma libertação e novas viagens, mostram um homem envelhecido preparando a próxima geração. A tradição antiga afirma que ele foi decapitado em Roma sob Nero, entre 64 e 67.
Treze cartas ao todo. Um homem que perdeu tudo, escrevendo sobre riqueza.
O fio condutor que atravessa a Bíblia
Paulo não se via como fundador de uma religião nova. Ele se via como o último capítulo de uma história antiquíssima. Quando explica o próprio chamado, ele usa uma linguagem que vem direto dos profetas: "Quando, porém, aprouve a Deus, que me separou antes de eu nascer e me chamou pela sua graça" (Gálatas 1:15). É a mesma linguagem de Jeremias 1:5 e do servo de Isaías 49:1. Paulo está dizendo que sua vida foi enxertada no roteiro que Deus vinha escrevendo desde Abraão.
E é justamente Abraão que se torna a peça central do seu argumento. Em Gálatas 3 e Romanos 4, Paulo volta a Gênesis 15:6, onde Abraão crê e é considerado justo, e mostra que isso aconteceu antes da circuncisão e séculos antes da lei do Sinai. Conclusão: a justificação pela fé não é uma invenção cristã de última hora, é o método original de Deus. A promessa a Abraão de que nele seriam benditas todas as nações encontra cumprimento exatamente no ministério de Paulo entre os gentios. O menino de Tarso é o carteiro de uma promessa feita dois mil anos antes dele.
Ao mesmo tempo, Paulo é honesto quanto ao que a lei não podia fazer. A lei revela o pecado, cerca o povo, aponta para a santidade de Deus, mas não produz um coração novo. Por isso ele lê o Antigo Testamento como uma longa espera. Os sacrifícios apontam para um sacrifício definitivo. O templo aponta para a habitação de Deus no seu povo. O êxodo aponta para uma libertação maior do que a do Egito. A monarquia aponta para um rei da linhagem de Davi que não morre.
Toda a espera do Antigo Testamento tinha um nome.
Em Cristo, tudo isso converge. Paulo condensa o evangelho em fórmulas que provavelmente já circulavam na igreja antes dele, como em 1 Coríntios 15:3 e 4, onde Cristo morre pelos nossos pecados segundo as Escrituras, é sepultado e ressuscita no terceiro dia segundo as Escrituras. Duas vezes a mesma expressão: segundo as Escrituras. A cruz não foi um acidente na história de Israel; foi o alvo.
E há uma dimensão pessoal nesse fio condutor que combina com o nosso ângulo. Paulo, o homem dos cálculos religiosos, descobriu que Deus nunca esteve fazendo negócio com méritos humanos. Do início ao fim, a Bíblia narra um Deus que escolhe o mais novo em vez do primogênito, o estéril em vez do fértil, o pastorzinho em vez dos irmãos altos, a virgem de Nazaré em vez da nobreza de Jerusalém. Quando esse Deus escolhe um perseguidor para ser apóstolo, ele não está mudando de método. Está sendo perfeitamente consistente com tudo o que já havia feito antes.
O coração de sua vida
Três momentos explicam Paulo melhor do que qualquer mapa de viagens.
O primeiro é a estrada de Damasco. Não foi uma mudança de opinião, foi uma demolição. Saulo tinha um sistema inteiro montado sobre a convicção de que Jesus era um impostor executado por Deus segundo a lei, e o Ressuscitado apareceu para desmentir esse sistema na cara dele. O detalhe que Lucas registra em Atos 9:3, a luz repentina do céu, marca o instante em que o homem mais confiante da Judeia perdeu simultaneamente a visão física e a certeza teológica. Depois disso, ele passou três dias sem comer. Não são três dias de estratégia; são três dias de luto. Só quando Ananias, um cristão que tinha todos os motivos para ter medo dele, o chama de "irmão Saulo", o luto começa a virar vida nova. Foi ali que o livro-caixa foi refeito, e Paulo passou o resto da vida explicando essa nova aritmética: "Mas o que, para mim, era lucro passei a considerar perda por causa de Cristo" (Filipenses 3:7). Ele não está dizendo que sua herança judaica era lixo, e sim que tudo o que ele usava para se recomendar a Deus perdeu valor diante de Cristo.
O segundo momento é o culto em Antioquia, registrado em Atos 13:2. Depois de mais de dez anos fora dos holofotes, Paulo é enviado por uma igreja que jejuava e adorava. Isso importa por dois motivos. Primeiro, porque o chamado veio do Espírito Santo em meio à comunidade, não de uma ambição privada; Paulo nunca foi um lobo solitário, sempre viajou em equipe, sempre prestou contas. Segundo, porque a obra já existia antes deles: "a obra a que os tenho chamado". A missão pertence a Deus; nós somos separados para ela, não sócios que a inventam.
O terceiro momento é o espinho. Em algum ponto do ministério, Paulo recebeu revelações extraordinárias e, junto com elas, uma dor persistente que pediu três vezes a Deus que removesse. A resposta que recebeu virou a espinha dorsal de sua teologia da fraqueza: "Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouso o poder de Cristo" (2 Coríntios 12:9). Aqui a contabilidade se completa. Não bastou perder o currículo religioso; Paulo teve de perder também a ilusão de força apostólica. Deus lhe deixou uma fragilidade permanente para que a coluna do crédito ficasse ocupada por uma única palavra: graça.
O que aprendemos com Paulo
A primeira lição é que ninguém está fora do alcance. Paulo escreveu sobre si mesmo: "Fiel é a palavra e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal" (1 Timóteo 1:15). Ele não usava o passado como capital de testemunho nem o negava; ele o mantinha visível como prova documental de que a graça não depende de material humano de boa qualidade. Se Deus fez apóstolo de quem assinava mandados de prisão contra cristãos, então a sua história, o seu divórcio, a sua dependência, o seu ateísmo de vinte anos, nada disso é grande o bastante para vencer a misericórdia.
A segunda lição é que a santidade cabe dentro de um homem imperfeito. A Bíblia não retoca Paulo. Ele briga feio com Barnabé por causa de João Marcos e os dois se separam (Atos 15:39). Ele responde com dureza ao sumo sacerdote e depois se corrige. Ele confessa em Romanos 7 uma guerra interior que qualquer cristão honesto reconhece. Ele se descreve como o menor dos apóstolos em 1 Coríntios 15:9. Curiosamente, foi esse homem irritável, teimoso e às vezes ríspido que escreveu o capítulo mais bonito já produzido sobre o amor. Aparentemente Deus não espera que fiquemos prontos para nos usar.
A terceira lição é sobre terminar. A última palavra registrada de Paulo sobre a própria vida não é sobre resultados, números de igrejas plantadas ou influência: "Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé" (2 Timóteo 4:7). Combate, corrida, guarda. Nenhuma dessas imagens fala de conforto, e nenhuma delas fala de sucesso. Falam de fidelidade prolongada. Ele escreve isso preso, abandonado por vários companheiros, sentindo frio e pedindo uma capa e seus livros. O balanço final de Paulo foi feito num lugar onde ninguém aplaudia.
Fidelidade não é o mesmo que reconhecimento.
O Espelho
Você provavelmente também tem um livro-caixa. Todos nós temos. Nele você anota o que acha que te torna aceitável: seus anos de igreja, sua disciplina, seu dízimo em dia, o fato de que você nunca fez "aquelas coisas" que outros fizeram. Ou, se o seu histórico é ruim, você anota na coluna vermelha e conclui que Deus tolera você por educação. As duas planilhas estão erradas, e Paulo desmontou as duas.
Pergunte a si mesmo, com sinceridade: o que você teria mais dificuldade de transferir para a coluna da perda? Talvez seja a sua reputação profissional, aquela identidade que você construiu com custo real e que hoje define como você se apresenta. Talvez seja o controle do seu dinheiro, a única segurança que você ainda sente que é sua. Talvez seja o histórico de quem sempre esteve certo nas discussões de família. Paulo perdeu tudo isso de uma vez, no meio de uma estrada de terra, e o resto da vida sustentou que aquilo foi o melhor negócio de sua existência.
E existe também o outro lado, que talvez seja o seu lado. Você está cansado. Tem uma dor que não sai, um casamento que não melhora, um corpo que não colabora, uma solidão que ninguém na sua igreja percebe. Você já orou três vezes, trinta vezes, e a resposta continua sendo silêncio ou "não". Repare que Paulo não recebeu o milagre; recebeu uma frase. "A minha graça te basta." Se você está esperando que Deus só se torne suficiente depois de resolver o seu problema, você vai passar a vida esperando. A oferta é diferente e melhor: ele quer ser suficiente agora, dentro do problema.
Onde está o seu crédito hoje? Naquilo que você conseguiu ou naquele que te encontrou?
Explicado para crianças
Com crianças, a história de Paulo funciona porque tem uma virada clara e visual. Um jeito simples de contar: existia um homem chamado Saulo que achava que estava ajudando Deus, mas na verdade estava machucando as pessoas que amavam Jesus. Um dia, no meio do caminho, uma luz muito forte veio do céu, ele caiu no chão e ouviu a voz de Jesus perguntando por que ele estava fazendo aquilo. Saulo ficou sem ver por alguns dias e, quando voltou a ver, tudo nele havia mudado. Ele passou o resto da vida viajando, contando para todo mundo que Jesus ama e perdoa, e escrevendo cartas que estão na nossa Bíblia até hoje.
Duas ideias valem mais do que os detalhes. A primeira: Jesus não desistiu nem do pior inimigo dele. A segunda: Deus consegue transformar completamente uma pessoa, inclusive alguém que fez coisas muito erradas. Crianças costumam se sentir aliviadas ao ouvir isso, porque muitas já carregam a sensação de serem "a criança difícil".
Vale adaptar a linguagem à idade. Para pré-escolares de 3 a 6 anos, a luz, a queda e a mudança de coração já são suficientes. Para crianças de 7 a 12, a viagem, as prisões e as cartas despertam muito interesse. Para adolescentes de 12 anos ou mais, as perguntas mais fortes são sobre identidade, culpa e propósito, e Paulo tem muito a dizer aí. Explicações específicas para cada faixa de idade estão disponíveis para acompanhar este guia.
Perguntas frequentes
Qual era o nome verdadeiro do apóstolo Paulo?
Ele tinha dois nomes desde o início, o que era comum entre judeus da diáspora com cidadania romana. Saulo era seu nome hebreu, homenagem provável ao primeiro rei de Israel, da tribo de Benjamim, a mesma tribo dele. Paulo era seu nome romano, usado no mundo grego e latino. A Bíblia não diz que Deus mudou seu nome na conversão; Lucas simplesmente passa a chamá-lo de Paulo a partir da primeira viagem missionária, quando o ministério entre os gentios se torna o centro de sua vida. Os dois nomes coexistiram, e ambos são verdadeiros.
Paulo era um dos doze apóstolos?
Não. Os doze foram escolhidos por Jesus durante seu ministério terreno, e o lugar de Judas foi preenchido por Matias em Atos 1. Paulo chegou depois, chamado diretamente pelo Cristo ressuscitado na estrada de Damasco, e defendeu sua autoridade apostólica exatamente com base nisso: ele vira o Senhor e havia sido enviado por ele. Em 1 Coríntios 15:8 ele se descreve como o último a quem Cristo apareceu, e em 1 Coríntios 15:9 se chama o menor dos apóstolos. Apóstolo genuíno, portanto, mas fora do grupo original dos doze.
O que aconteceu exatamente na estrada de Damasco?
Paulo viajava com autorização para prender cristãos quando, segundo Atos 9:3, subitamente uma luz do céu brilhou ao seu redor. Ele caiu por terra e ouviu uma voz perguntando por que o perseguia. Ao indagar quem falava, recebeu a resposta de que era Jesus, a quem ele perseguia. Ficou cego, foi levado pela mão até Damasco e passou três dias em jejum, até que Ananias orou por ele, sua visão foi restaurada e ele foi batizado. Lucas conta esse episódio três vezes em Atos, sinal de sua importância central.
Quantas cartas Paulo escreveu na Bíblia?
Treze cartas do Novo Testamento levam o nome de Paulo: Romanos, Primeira e Segunda Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, Primeira e Segunda Tessalonicenses, Primeira e Segunda Timóteo, Tito e Filemom. Hebreus é anônima, e desde a igreja antiga há dúvida sobre sua autoria, embora algumas traduções e tradições a associem a Paulo. Ele também menciona correspondência que não chegou até nós, como uma carta anterior aos coríntios. As treze que temos foram escritas ao longo de aproximadamente quinze anos, quase sempre em resposta a situações concretas.
Paulo escreveu suas cartas na prisão?
Quatro delas sim: Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemom são tradicionalmente chamadas cartas da prisão, escritas provavelmente durante os dois anos de prisão domiciliar em Roma. Segunda Timóteo veio de uma segunda prisão, bem mais dura, próxima de sua execução. As demais nasceram na estrada, em Corinto, em Éfeso, em Antioquia. Chama a atenção que a carta mais alegre de todo o conjunto, Filipenses, com seu convite repetido a se alegrar sempre no Senhor, tenha sido escrita justamente por um homem acorrentado e aguardando julgamento.
Como Paulo morreu?
A Bíblia não narra sua morte. Atos termina com ele em Roma, sob prisão domiciliar, pregando com liberdade durante dois anos. Escritores cristãos do fim do primeiro século e do segundo, como Clemente de Roma, Eusébio e Tertuliano, registram que Paulo foi martirizado em Roma durante a perseguição de Nero, entre os anos 64 e 67. Por ser cidadão romano, teria sido decapitado em vez de crucificado. Segunda Timóteo 4:6 e 7, com sua linguagem de despedida e carreira completada, é a última voz que ouvimos dele.
O que era o espinho na carne de Paulo?
O texto de 2 Coríntios 12:7 chama de espinho na carne e de mensageiro de Satanás enviado para não o deixar exaltar-se. Paulo nunca especifica o que era. As sugestões mais comuns ao longo da história são uma doença ocular, dores de cabeça crônicas, malária, epilepsia, oposição humana persistente ou tentação recorrente. Esse silêncio provavelmente é intencional e generoso: qualquer pessoa que carregue uma dor incurável pode se colocar ali. O ponto do texto não é o diagnóstico, e sim a resposta recebida: "A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza."
Paulo era casado?
A Bíblia não diz. Em 1 Coríntios 7:8 ele se dirige aos solteiros e viúvos afirmando que é bom permanecerem como ele, e em 1 Coríntios 9:5 defende o direito de os apóstolos levarem consigo uma esposa crente, um direito do qual ele abre mão. Alguns estudiosos supõem que, como membro do Sinédrio ou pelo menos como fariseu formado, teria sido casado e depois enviuvado, mas isso é conjectura. O que o texto afirma com clareza é que ele viveu seu ministério sem esposa e considerava isso um dom, não uma privação.
Por que Paulo perseguia os cristãos antes de se converter?
Porque acreditava estar defendendo a honra de Deus. Para um fariseu zeloso, afirmar que um homem crucificado era o Messias soava como blasfêmia, já que a lei declarava maldito quem fosse pendurado num madeiro (Deuteronômio 21:23). Além disso, o movimento cristão parecia relativizar o templo e a lei, os dois pilares da identidade judaica. Paulo não era um cínico oportunista; era um homem sincero e completamente errado, e ele mesmo depois descreveria essa sinceridade como zelo sem entendimento (Romanos 10:2). Isso torna sua conversão ainda mais impressionante.
Qual é a diferença entre a teologia de Paulo e a de Tiago sobre a fé e as obras?
Não há contradição, há perguntas diferentes. Paulo combate quem tentava acrescentar exigências da lei ao evangelho e afirma que somos justificados pela fé, sem as obras da lei, como em Efésios 2:8 e 9. Tiago combate quem dizia crer e vivia sem qualquer transformação, e afirma que a fé sem obras é morta. Paulo fala de como alguém entra na graça; Tiago fala de como se reconhece uma fé verdadeira. O próprio Paulo insiste que somos criados em Cristo Jesus para boas obras, o que mostra que os dois estão do mesmo lado.
O que significa "não me envergonho do evangelho" em Romanos 1:16?
Escrevendo a cristãos que viviam na capital do Império, Paulo declara: "Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego." A mensagem de um judeu executado numa cruz era ridícula para gregos cultos e ofensiva para judeus religiosos. Paulo afirma que aquilo que parece fraco é justamente onde reside o poder de Deus, e que esse poder não faz distinção de etnia ou classe. É a versão pública da mesma lógica que ele descobriu em Damasco.
Quanto tempo se passou entre a conversão de Paulo e o início de seu ministério missionário?
Cerca de treze a quinze anos. Em Gálatas 1 e 2 ele conta que foi para a Arábia, voltou a Damasco, subiu a Jerusalém apenas três anos depois e passou anos nas regiões da Síria e da Cilícia, sem ser conhecido de vista pelas igrejas da Judeia. Só quando Barnabé o busca para Antioquia (Atos 11) ele reaparece, e o envio missionário formal acontece em Atos 13:2. Foi um longo período de preparo escondido, algo que costuma consolar quem sente que sua vocação está demorando a se cumprir.
Para encerrar
A vida de Paulo é frequentemente contada como uma escalada: de perseguidor a apóstolo, de obscuridade a influência mundial. Ele contava ao contrário. Para Paulo, a trajetória foi uma descida deliberada, uma sequência de perdas voluntárias que terminou numa cela romana com uma capa emprestada e alguns livros. Ele considerava isso lucro, porque a única linha que restou no seu balanço era Cristo, e Cristo bastava.
Se você quiser continuar essa leitura, comece por Filipenses 3, onde ele apresenta o cálculo inteiro em poucos versículos, e depois vá para Romanos, onde ele desenvolve, com paciência de professor, por que a graça é a única moeda aceita. Leia Atos 9, Atos 22 e Atos 26 lado a lado e observe o que muda em cada versão do mesmo testemunho. E, ao ler, resista à tentação de admirar Paulo. Ele detestaria isso. Ele passou a vida tentando desviar os olhos das pessoas de si mesmo para aquele que o encontrou na estrada, e que ainda encontra pessoas no meio do caminho, quando elas estão indo exatamente na direção errada.
